Teste 1: AMPLIFICADOR INTEGRADO NAGRA CLASSIC INT

Teste 2: TOCA-DISCOS THORENS TD 550
março 11, 2020
TOP 5 – AVMAG
março 11, 2020


Fernando Andrette
fernando@clubedoaudio.com.br

Minha curiosidade em ouvir o integrado da Nagra só ampliou após o teste do amplificador estéreo publicado na edição 258. E o motivo deste interesse foi justamente saber que a seção de amplificação é a mesma do Nagra Classic AMP.

Então, a dúvida que se instalou em minha mente foi: e a seção de pré-amplificação deste integrado? Se baseia no pré Classic, ou os engenheiros buscaram uma outra alternativa para viabilizar o produto em um mercado tão competitivo como o de integrados Estado da Arte?

Muitos dos fabricantes que desejam uma fatia deste mercado apostam em produtos ‘tudo em um’, com DAC interno, pré de phono e muita potência. A Nagra foi no sentido diametralmente oposto desta tendência. Então, meu caro amigo, se você busca um integrado que seja a unidade central de todo o seu sistema de áudio, esqueça o Nagra Classic INT. Pois ele não possui nenhum desses recursos que tanto agradam aos audiófilos mais jovens.

Para muitos parecerá estranho um integrado de apenas 100 Watts por canal e que sequer o fabricante informa se esta potência dobra ou não em 4 Ohms. Também não especifica por quanto tempo este trabalha em pura classe A antes de entrar em regime classe B.

Mas se o leitor lhe der uma chance, garanto que muitas de suas virtudes serão imediatamente notadas. Mas deixemos esta descrição para mais adiante, e falemos um pouco de suas especificações.

Seu gabinete em termos de tamanho e peso é idêntico ao power Classic AMP. É óbvio que os projetistas pegaram o gabinete do Classic AMP e o adaptaram para receber um pré-amplificador e dotar o aparelho com uma entrada XLR e quatro RCA. Os plugs de caixa são os famosos Cardas de Ródio (também presentes no Classic AMP), tomada IEC, caixa de fusível acima da tomada IEC, e só.

Em sua frente encontramos, à esquerda, o famoso Modulômetro (marca registrada da Nagra) seguido do display que indica as entradas, botão de controle de entradas, uma chave que possibilita o aumento de ganho em 12 dB, volume e a chave de liga / desliga, e mute.

A sensibilidade das entradas pode ser ajustada pelo menu, o que facilita muito o usuário no dia a dia, a não tomar sustos. Todas as funções também podem ser acessadas pelo controle remoto.

Como todo produto deste fabricante, a sensação tátil é a que mais impressiona, pois, interruptores são integralmente macios e livres de clicks, exigindo zero de esforço físico! Seu acabamento é de encher os olhos, e são feitos literalmente para durar por uma vida. Como em todos os projetos, a topologia segue a máxima do ‘menos é mais’. Então o par de transistores mosfet dará cabo de domar a maioria das caixas existentes, e sua potência – que para muitos pode parecer insuficiente – será capaz de atender a salas de até 50 metros quadrados tranquilamente!

Respondendo à pergunta do início deste teste, o pré deste integrado não foi baseado no Classic PREAMP, pois não haveria espaço físico para tanto. Então os engenheiros partiram do zero. Ainda que não tenha encontrado informação nenhuma sobre a topologia do pré, posso garantir que sua sonoridade é em muito semelhante ao Classic PREAMP. E como eu sei? Pelo simples fato de estar com o PREAMP também em teste. Então pude comparar diretamente o conjunto Pré & Power Classic com o integrado Classic, utilizando as mesmas caixas, cabos e fontes. O que ajudou incrivelmente a tirar todas as conclusões e fechar as notas (se tivéssemos a oportunidade de fazer sempre assim, seria uma mão na roda).

Como este Integrado já estava vendido, tivemos 4 semanas para descobrir todas as suas qualidades. O teste foi feito com as seguintes caixas: Rockport Avior II, Boenicke W8 e W5SE, e Wilson Audio Sasha DAW. Cabos de caixa: Dynamique Audio Halo 2 e Sunrise Lab Quintessence. Cabos de interconexão: Sunrise Lab Quintessence, Sax Soul Ágata II, e Dynamique Audio Apex. Fontes analógicas: Thorens TD 550 (leia Teste 2 nesta edição) e Acoustic Signature Storm. Cápsulas: Transfiguration Proteus e Soundsmith Hyperion 2, e braço SME Series V. Pré de phono: Boulder 500. Fontes digitais: streamer Cambridge Audio CXN V2, e setup dCS Scarlatti. Cabos de força: Sax Soul Ágata II, Sunrise Lab Quintessence e Transparent PowerLink MM2.

Colocamos o Integrado da Nagra pelo mesmo tempo do power Classic: 200 horas. Sendo que a cada 50 horas o tirávamos da bancada para ouvir novamente na Sala de Referência. Como a caixa Boenicke W8 também estava em amaciamento, evitamos ouvir o conjunto até que ambos estivessem 100% amaciados. Então, nesta primeira fase, o integrado teve como companhia somente a Sasha DAW.

O Nagra INT precisa das 200 horas de queima para mostrar toda sua versatilidade e refinamento. Li alguns testes em que os articulistas falam em falta de peso ou um caráter mais firme nas passagens de macrodinâmica. Não sei se estes testes levaram em consideração a necessidade de todo o período de queima, pois se existe uma característica que mudou sensivelmente foi justamente o peso e o corpo depois das 200 horas de queima.

Em nossa sala, com o setup de caixas à nossa disposição, o integrado Nagra não teve a menor dificuldade em mostrar toda sua habilidade em conduzir as quatro caixas. E jamais entrou em proteção ou sequer acendeu em seu painel o LED vermelho (que indica que o power está excedendo sua potência) – e olhe que ouvimos exemplos de macrodinâmica ‘cavernosos’.

No começo desta longa jornada de articulista, eu levava muito a sério o que os outros haviam observado. E ficava realmente preocupado quando minhas observações não batiam. À medida em que fomos aplicando a Metodologia e nos cercando de produzir nossas próprias gravações, e construímos duas Salas de Referência (a do querido amigo Victor Mirol e a nossa), fui relaxando. E hoje, quando leio conclusões tão distintas, me atenho mais a observar o setup utilizado pelo articulista e, graças ao YouTube, muitas vezes podemos até conhecer a sala em que o articulista realiza suas observações auditivas. E, creiam, consigo muitas vezes entender o motivo de conclusões tão diferentes.

E, no final, a única coisa realmente importante é a sua opinião a respeito do produto, não a minha ou de qualquer outro articulista. Somos apenas uma bússola, nada mais do que isso! Se quiseres usar esta orientação como um ponto de partida, ótimo! Se não quiseres, não há problema algum.

O que posso dizer a vocês que leram o teste do power Nagra Classic em estéreo e em mono, é que a assinatura sônica é a mesma, presente em toda a linha Classic. O mesmo equilíbrio tonal, tão correto e natural, que nos faz querer ouvir repetidamente aquelas gravações que julgávamos ‘carta fora do baralho’, por nunca conseguirmos apreciar adequadamente pelas suas limitações técnicas.

Outro dia um amigo músico me perguntou: “o que difere um produto de nível superlativo de um excelente produto?”. Sua capacidade de resgatar suas gravações abandonadas, respondi! Mostrar gravações hi-end para vender um produto também hi-end é como chupar picolé, não precisa de nenhum esforço suplementar.

Agora, se você deseja entender o que separa um excelente produto hi-end de um excepcional, demonstre com aquelas gravações que o excelente produto irá ‘resmungar’ ou se negar a reproduzir. O de padrão superlativo não irá transformar ‘água em vinho’ – este milagre não existe – mas ainda assim a audição será palatável, com folga, possibilitando ouvir detalhes, intencionalidade e precisão se artisticamente houverem essas qualidades.

Um exemplo matador são os discos da cantora Nina Simone, tão limitados tecnicamente e tão belos artisticamente. Peça para o vendedor colocar alguns exemplos (pode ser até via streaming) e em um minuto você entenderá a diferença entre o ‘bom’, o ‘excelente’ e o ‘divino’. Você não precisará ter ‘ouvido de ouro’, descobrir se é ‘sintético’ ou ‘analítico’, e nem fazer audiometria complexa para descobrir a curva de equalização ideal para sua audição. Seu cérebro reconhecerá instantaneamente a diferença entre cada setup em segundos!

E este Nagra integrado pertence a essa estirpe de produtos que nos levam a apreciar a música em sua totalidade e não por partes fracionadas. Aliás, no nosso Curso de Percepção Auditiva, a primeira coisa que desconstruímos é o ‘ouvir fracionado’. Essa coisa de: observe os graves, depois os médios, e agora os agudos, só te levará a perder o gosto de ouvir suas músicas preferidas e passar a ‘radiografar’ equipamentos.

Com um equilíbrio tonal tão exuberante, o que o Nagra lhe entrega é a música, sempre a música, em primeiro plano! Não é tão espetacular quanto o conjunto pré e power Classic, mas os planos, a profundidade, largura e altura é uma referência em termos de integrado.

A apresentação de foco, recorte e ambiência são de tamanha precisão e correção, que nos possibilitam ouvir obras sinfônicas com um conforto auditivo pleno! As salas de gravação são retratadas com absoluto realismo, possibilitando termos uma compreensão exata do tamanho do ambiente e das qualidades acústicas da sala! As gravações da big band do Wynton Marsalis – Jazz At Lincoln Center Orchestra – são todas feitas ao vivo, em distintas salas pelo mundo, e o Nagra INT nos mostra com absurda precisão a qualidade e tamanho de cada uma! Vale a pena ouvir essas gravações – se aceita uma dica, comece por escutar a feita em Cuba. Espetacular em todos os sentidos!

As texturas deste integrado receberam, em meu caderno pessoal de anotações, quatro páginas repletas de detalhes como a possibilidade de se ouvir a técnica vocal e de respiração de todos os cantores e cantoras. Ou a qualidade dos instrumentos de todos os quartetos de cordas que escutei durante o teste (foram 38 gravações de quartetos, para ser exato). Mas a percepção auditiva deste quesito foi além ao retratar com absoluta fidelidade a escolha dos microfones, a qualidade da execução dos músicos e a dificuldade técnica dos arranjos. Sublime é o único adjetivo para descrever as texturas!

Os transientes são absolutamente semelhantes aos do power Classic. Precisão sem esforço nenhum. Tempo e ritmo que nos faz achar que aquele compasso 8 por 9 é a coisa mais fácil de executar.

Interessante como nenhum produto até aqui testado deste fabricante Suíço coloca luz ou dá maior ênfase a um determinado quesito. Pelo contrário, tudo é tratado homogeneamente. Com a dinâmica ocorre o mesmo. A micro está presente fielmente, mas não haverá uma sobreposição ou destaque adicional, como por exemplo um triângulo ter o mesmo peso que o solista da orquestra.

Os mais jovens precisam compreender que em um sistema em que o detalhe tem o mesmo peso que o principal, a audição depois de um curto espaço de tempo causará fadiga e ficará enfadonha. Pois não haverá folga para quando entrar a macrodinâmica e nem tampouco espaço. Aí que ocorre o endurecimento e aquela necessidade de correr e baixar o volume imediatamente. É o que chamo de uma pirotecnia desnecessária e perigosa para a saúde de nossa audição.

Nunca irei me esquecer de um show da banda alemã de jazz-fusion Passport, que se apresentou no auditório do MASP na Avenida Paulista, em São Paulo, em 1978 e fiquei intrigado ao ver no palco antes da apresentação, nas laterais do palco, apenas 4 pares de monitores de tamanho médio, que pareciam ter a dimensão de 4 caixas JBL Classic 100 empilhadas, e uma mesa de som de apenas 16 canais para sonorizar o quarteto. Achei que teríamos uma apresentação ‘pífia’ para um show de rock progressivo. Meu amigo, foi uma das apresentações mais impressionantes em matéria de inteligibilidade, equilíbrio tonal e conforto auditivo que presenciei na vida! O Passport não era lá muito bom artisticamente, mas a qualidade de som que aquele engenheiro nos proporcionou foi histórica. Tinha peso, equilíbrio, velocidade, tudo!

O que comentei com os amigos, após o encerramento, foi que aquela tinha sido a primeira vez que havia assistido a uma apresentação ao vivo e sai do show sem zumbido ou fadiga auditiva! Exemplar! Descrevi esta passagem de minha vida, rs, para explicar a macrodinâmica do integrado da Nagra.

Esqueça aqueles arroubos de sentir a próstata tremer, ou aquele coice no peito que o fará ter palpitações.

Se esta é a sensação que procura em um sistema, meu amigo será mais barato o senhor comprar um sistema de PA e instalar em sua sala (e não esqueça do protetor auricular, se deseja não ficar surdo aos 30 anos).

Este Nagra, mostrará corretamente os degraus da passagem do piano para um fortíssimo, mas sem perder o fôlego ou ficar no meio do caminho, com aquela sensação de endurecimento e frontalização do acontecimento musical.

O corpo harmônico foi muito ‘esclarecedor’ em relação ao digital e o analógico. Esta continua sendo a ‘pedra no sapato’ do digital. Por mais que tenha avançado, ao fazer um comparativo do mesmo disco analógico versus digital é que entendemos como o digital ainda não chegou lá (será que um dia chegará?).

No analógico, ao ouvir a Nona Sinfonia de Beethoven com o maestro Georg Solti, os contrabaixos ocupam todo o lado direito da sala, para fora das caixas e atrás desta. No CD, os contrabaixos estão dentro da caixa no canal direito, e no Streaming parece que somente um contrabaixista veio a gravação, os outros estavam de licença médica, rs!

Se queres entender um pouco da magia do analógico, observe exatamente o corpo harmônico de cada instrumento. E saberá um dos motivos do analógico encantar a tantos!

A organicidade neste integrado é exemplar. Pois mesmo em gravações não audiófilas é possível materializar o acontecimento musical em nossa sala de audição. Acredito que esta ‘magia’ ocorra pelo silêncio de fundo deste integrado, que é simplesmente o melhor dentre todos os integrados já testados por nós nesses 23 anos! Este silêncio nos permite saber se o solista está em pé, sentado, se cantou estático (no caso de vozes) ou se ala Elis Regina não parava quieta em frente ao microfone. Tudo é materializado, até mesmo o movimento do violinista e do cellista em frente ao microfone!

Sim meu amigo, você ‘vê’, literalmente, o que está escutando!

CONCLUSÃO

Se fizermos uma comparação dos cinco integrados no nosso Top 5, veremos que cada um possui uma assinatura sônica e recursos distintos. Cada um com sua proposta, certamente está aí para atender a um nicho específico de mercado. Os que possuem mais recursos, como DAC interno e pré de phono, levam vantagem em relação aos que nada disso oferecem.

Então o que faz deste Nagra um produto tão distinto? Sua performance e refinamento.

Em tamanho grau, que aqueles que já passaram por todas as etapas da audiófilia provavelmente irão em algum momento poder aportar e ficar.

Diria que este nicho de consumidores é muito distinto de todos os outros, pois tem como referência e objetivo unicamente sentar para ouvir sua música. Não está mais almejando compartilhar seus momentos com os amigos e nem tão pouco colocar seu setup para discussão ou avaliação dos outros. Este período de euforia já terminou!

Agora o objetivo é resgatar toda a sua coleção de discos e poder ouvi-los decentemente e com um grau de envolvimento emocional que só os produtos excepcionais propiciam. Esta é a proposta da Nagra para todos os seus produtos. Desfrutar de momentos inesquecíveis a sós ou apenas acompanhados por aqueles que também clamam por este ‘oasis’ sonoro. Aqui não se avalia mais se este produto soa como válvula ou transistor, ou se é mais transparente ou musical. O que predomina essencialmente é desfrutar a música como se ela estivesse esperando o ouvinte certo no momento certo!


Pontos positivos

Um integrado de construção e performance superlativos.

Pontos negativos

Uma assinatura sônica refinada sem nenhum tipo de arroubo pirotécnico.


ESPECIFICAÇÕES
Potência100 W RMS (into 8 Ohms) por canal
SaídasCardas CPBP (terminais de ródio)
Entradas– 1x XLR (balanceada)
– 4x RCA
Impedância de entrada100 KΩ
Impedância de saída60 mΩ
Dimensões (L x A x P)277 x 174 x 395 mm
Peso 18 Kg

AMPLIFICADOR INTEGRADO NAGRA CLASSIC INT
Equilíbrio Tonal 13,0
Soundstage 12,0
Textura 13,0
Transientes 13,0
Dinâmica 11,0
Corpo Harmônico 12,0
Organicidade 12,0
Musicalidade 13,0
Total 99,0
VOCAL
ROCK, POP
JAZZ, BLUES
MÚSICA DE CÂMARA
SINFÔNICA
ESTADODAARTE



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