Teste 1: PRÉ AMPLIFICADOR SHINDO AURIEGES L

Teste 2: CONDICIONADOR DE ENERGIA GIGAWATT PC-4 EVO+
agosto 16, 2020
TOP 5 – AVMAG
agosto 16, 2020

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Fernando Andrette
fernando@clubedoaudio.com.br

O falecido revisor da revista Stereophile, Art Dudley, foi sem dúvida alguma o porta voz da Shindo ao mundo, já que até o início do século 21 este fabricante era praticamente desconhecido no ocidente.

O próprio Art Dudley ficou surpreso ao saber que a Shindo existia desde 1977, e que seu fundador, o engenheiro Ken Shindo, antes de abrir o laboratório Shindo em Tóquio, foi por muitos anos um colecionador de válvulas antigas e componentes, hoje considerados vintage.

Dudley, ao conhecer os produtos Shindo no início deste novo século, se tornou um fã incondicional da marca, e criou laços de amizade com a família Shindo (Ken, sua esposa e seus dois filhos). Ele foi capaz de entender como ninguém a arte de Ken Shindo e seus conceitos teóricos e, porque não dizer, filosóficos. E em cada novo produto testado, ele fazia uma longa introdução explicando a seus velhos e novos leitores, os conceitos e ideias do Sr. Shindo e, depois de sua morte (em 2014), o rumo que a empresa tomou nas mãos da viúva e de seu filho mais velho.

Aqui no Brasil também arrisco dizer que a Shindo tem seu “porta voz”: o querido amigo César Miranda, violinista da OSESP, que adquiriu seu pré Shindo Aurieges L, se não me engano, em 2012 (que ele me corrija se estiver errado). E sempre, em nossos encontros, ele me disse enfaticamente: “Você precisa escutar um produto da Shindo”.

O tempo passou, e finalmente o Fernando Kawabe pegou a representação da marca para o Brasil, e cá estou eu com o pré de entrada deste fabricante, por cerca de 90 dias! Mas antes que o César pule no meu pescoço, recorrerei novamente ao falecido Art Dudley para explicar a maneira que o sr Ken Shindo via o áudio de qualidade.

Ele nunca disse que algum produto por ele criado seria de “entrada”, “intermediário” ou o “top de linha”. Para ele, cada produto seu era como um filho, com todas as suas qualidades e limitações. No teste do pré amplificador Vosne-Romanee, de outubro de 2010, Dudley em sua longa introdução nos lembra que o primeiro “mandamento” de Ken Shindo era: que seus produtos não eram desenvolvidos para produzir apenas sons que podem ser ouvidos de um único assento da sala, e nem eram feitos para destacar efeitos espaciais para o entretenimento daqueles que sabem muito sobre equipamentos, mas pouco ou nada sobre música ao vivo não amplificada. E que seus produtos tinham a mera função essencial de ajudar a recuperar a arte de ouvir música, e nada mais que isso.

E, no parágrafo seguinte, Dudley ressalta novamente que o Ken Shindo não considerou jamais um produto seu melhor que o outro, e sim um diferente do outro, para ouvintes diferentes, mas que aspiram ouvir seus discos da melhor maneira possível dentro de seu orçamento e exigência sonora.

Muitos devem estar se perguntando de onde vieram as inspirações para o nome de cada produto? Mais uma vez serei salvo pelo Art Dudley: alguns de sua paixão por nomes de vinhos raros, e outros são termos musicais, e um dos seus produtos recebeu o nome de uma mulher.

O modelo enviado para teste já faz parte da geração produzida agora pelo seu filho mais velho, Takashi Shindo, e suas diferenças em relação ao modelo que o amigo César possui vão além de mudanças no gabinete, como por exemplo os dois grandes botões de volume e seletor de entrada – que, no mais antigo, eram um ao lado do outro – agora ficam um em cima do outro. As válvulas também foram colocadas na frente, no meio do painel, no modelo já produzido pelo filho Takashi.

Alguns componentes também são diferentes, mas neste caso não dá para saber se foi proposital ou se foi pelo componente original não existir mais. Ken Shindo, muitas vezes dentro de um mesmo lote de um mesmo produto, fazia pequenas alterações no circuito para adequar o que havia disponível no estoque, sem jamais perder a assinatura sônica dos seus produtos. Então é comum nos fóruns de discussão de shindomaníacos (termo que eu inventei depois de ler a verdadeira adoração que muitos audiófilos têm pela marca), ver o mesmo modelo, com um número de série bem próximo, com componentes distintos na mesma placa. Isso ocorre com válvulas, capacitores e resistores.

Para a maioria dos audiófilos, que cresceram ouvindo e comprando produtos hi-end de fabricantes que produzem em larga escala, deve parecer estranho que uma empresa ainda desenvolva produtos “personalizados”, ainda que em série. Este foi o grande legado de Ken Shindo: produzir produtos de forma artesanal e utilizando componentes de sua própria coleção pessoal, que ele montou durante quatro décadas, e que seu filho mais velho continua a fazer com maestria. Nos fóruns, os elogios aos novos produtos Shindo pós 2014, são contundentes – até mesmo do falecido Art Dudley, que chegou a temer pela continuidade da Shindo, mas se rendeu ao escutar os produtos desta nova geração.

O Aurieges L chegou em um excelente momento, pois tínhamos dois excelentes powers de estado sólido para serem seu par (Nagra Classic e o CH Precision A1.5). O Kawabe nos confirmou que em breve estarão chegando dois modelos dos powers estéreo, e nos disponibilizará novamente o pré para podermos compartilhar com os leitores a assinatura sônica do pré e power Shindo.

No entanto, adianto que a sinergia alcançada com ambos os powers deu para nos mostrar a impressionante qualidade deste pré. Como veio praticamente com menos de 20 horas de amaciamento, como de praxe fizemos a audição de primeiras impressões, e o colocamos em queima por 80 horas.

Para o teste utilizamos nosso Sistema de Referência, alternando com os dois powers, caixas Wilson Audio Sasha DAW, cabos de caixa Sunrise Lab Quintessence e Feel Different FDIII (leia Teste 5 de áudio nesta edição), e cabos de interconexão RCA Sunrise Lab Quintessence e Feel Different FDIII. Os cabos de força foram três: FDIII, Quintessence, e Transparent Reference G5. Fontes digitais: transporte dCS Scarlatti com os DACs Nagra TUBE DAC e HD. Fonte analógica: toca-discos Mark Levinson (teste na edição de setembro) com braço VPI de 12 polegadas e cápsula Ortofon Cadenza Bronze, além do toca-disco Acoustic Siganture Storm com braço SME Series V e cápsula SoundSmith Hyperion 2. Prés de phono: Boulder 508 e CH Precision P1 (teste na edição de setembro).

Se você é daqueles leitores que acha inadmissível um produto hi-end sem controle remoto, pode parar de ler este teste aqui! Agora, se você é “flexível” e aceita que um produto hi-end, se tiver uma performance exuberante, pode cometer esse pecado, me siga!

Se meu pai estivesse vivo, e eu apresentasse este pré a ele, sei com certeza qual seria seu comentário ao final da audição: “Este pré separa os meninos dos homens”. Consigo escutar em minha mente ele falando esta frase, levantando e indo até o pré fazer seu contato físico e visual – que ele só dedicava ao que realmente o havia seduzido e encantado!

Terei que falar de encanto, e não de topologia, amigo leitor. Pois é um pré tão minimalista e feito com tamanha objetividade que só um artista que domina sua arte em todos os estágios será capaz de cumprir tão grande desafio! Tentar explicar as diferenças entre este e tantos outros excelentes prés valvulados será uma perda de tempo, pois a única maneira de ser justo com este produto é ouvindo. Não existe outra maneira (pelo visto), de ser apresentado a um produto Shindo. Você terá que vencer todos os seus preconceitos e desconfianças e ir de mente vazia e coração aberto para essa audição.

Aos que se propuserem a este desafio, garanto uma coisa: sua percepção de ouvir sistemas hi-end mudará para sempre, pois como tão bem escreveu Art Dudley, não se trata de um palco cirúrgico, em uma posição de escuta única – estamos falando de como a música chega até nós na Sala São Paulo, por exemplo, estejamos em uma posição privilegiada nas primeiras filas e ao centro do palco, ou no mezanino lateral. Quem frequenta a Sala São Paulo entenderá muito bem o que estou tentando descrever. A acústica da Sala foi feita para levar o que está acontecendo no palco a toda a plateia, ainda que a inteligibilidade possa ser maior em determinadas posições.

Mas o ouvinte na Sala São Paulo não terá dificuldade de ouvir os instrumentos, suas alturas, variações dinâmicas e muito menos distinguir os instrumentos que estão tocando. É disso que Ken Shindo sempre nos falou e mostrou com seus produtos. A música transcende esses pequenos obstáculos de posições de audições privilegiadas.

Querem uma prova do que acabei de escrever?

Meu querido amigo, e ex colaborador da revista, o Roberto Diniz, me fez uma visita recente e estávamos ouvindo o sistema com o Shindo de pré amplificador, ele se levantou e sentou na lateral da sala no chão para escolher alguns LPs. Estávamos tocando uma obra com a violinista Hilary Hahn, se não me engano o concerto para violino e orquestra do Bernstein, quando ele parou de escolher os LPs e, sentado de costas para as caixas, comentou como era sedutor o timbre do violino da Hilary!

São essas descobertas que o pré Aurieges L nos proporciona. Mas não serão esporádicas, com uma ou outra gravação, e sim com toda a sua coleção de discos. Em tudo haverá uma nuance, uma passagem, um solo que nos fará suspirar e nos perguntar o motivo daquele arrebatamento não ter ocorrido antes com prés muito mais caros, com topologias de última geração…

A vida do audiófilo felizmente tem essas caixinhas de surpresas. Basta que você esteja aberto a viver e conhecer esses produtos que fogem do lugar comum, e muitas vezes de todos os conceitos que você aprendeu sobre o que é certo e errado na audiofilia.

Sempre cito aos leitores mais novos, de um acontecimento que me marcou muito alguns anos atrás. Testamos e publicamos na mesma edição dois integrados na mesma faixa de preço, com topologias distintas, sendo um totalmente minimalista (Etalon) e outro com uma topologia repleta de recursos e circuitos (Plinius). E mostramos ambos abertos, o que escancarou a diferença entre os dois e colocou em discussão calorosa entre os leitores como o Etalon podia custar o mesmo que o Plinius com um décimo de componentes do integrado! Tentei não me intrometer e deixar as discussões rolarem para ver aonde iriam, mas chegou em um ponto em que achei que deveria, como editor, me pronunciar. Pois afinal sempre achei que, se o que o audiófilo busca é a fidelidade máxima e o melhor conforto auditivo, independente da topologia, se o produto o atender e estiver dentro do seu orçamento, nada mais importa (ou deveria importar, no meu modo de ver o hi-end).

O mesmo ocorrerá certamente com este pré da Shindo. Muitos de vocês acharão vultoso um pré minimalista custar 6 mil dólares sem controle remoto e com apenas 4 entradas de linha, e uma única saída – o que impede a bi-amplificação. Mas se derem a chance a este Shindo de mostrar suas inúmeras virtudes sonoras, garanto que suas convicções podem se diluir como gelo ao sol. Mas sei que isso só será possível aos que, em sua busca, estão atrás da música e não artefatos sonoros!

Este pré não sabe nada de artefatos sonoros – como maior foco, recorte ou transparência cirúrgica. Seu objetivo é o mesmo de um instrumento musical de qualidade, em mãos hábeis: fazer a plateia congelar e se concentrar em ouvir apenas a música e mais nada.

Se você já teve algum momento de sua jornada essa experiência de se sentir completamente envolvido pela música a ponto de esquecer quantos minutos ou horas já se passaram, este pré tem muito a lhe mostrar. Caso contrário, esqueça-o, pois ele não terá nada a lhe dizer.

Sua assinatura sônica é tão intensa que foi difícil até mesmo definir as diferenças, tão óbvias em outros prés, de ouvir digital ou analógico. Pois ambos soaram tão orgânicos e divinos que a única dificuldade era terminar as audições e voltar ao cotidiano diário.

Veja que escrevi linhas e mais linhas e não entrei em nenhum momento nos quesitos da Metodologia. Sabe o motivo amigo leitor? É que os quesitos neste caso estão intrínsecos ao todo. Não há como separar: ou você leva o pacote todo, ou esqueça!

Claro que ele não tem a extensão nas duas pontas que o nosso pré de referência apresenta. Seu silêncio de fundo não está entre os melhores da categoria Estado da Arte. Seu soundstage não possui a profundidade dos melhores prés que já testamos.

Porém, aperte o play, ouça as primeiras notas ou os dois primeiros acordes, e você esquecerá integralmente de analisar qualquer quesito. Pois a música, como dizia o meu pai, em alguns produtos sempre nos soa mais alto, mais íntimo e mais emocionalmente contundente!

CONCLUSÃO

É preciso alguma conclusão?

Como tão bem disse Albert Einstein: “A prova só existe para aqueles que não tem certeza”. Ken Shindo é um daqueles projetistas que, ainda que descobertos tardiamente pelo ocidente (nos Estados Unidos a marca só começou a ser distribuída efetivamente em 2004), terá um lugar de honra no pódio dos ilustres projetistas de áudio hi-end. Pois sua capacidade, perseverança e sensibilidade estão presentes em todos os seus produtos. Isso certamente explica a veneração que os audiófilos que possuem Shindo expressam em seus testemunhos.

Acho que o audiófilo que escolhe um setup Shindo, sabe que sua escolha foi definitiva!


Pontos positivos

Um pré cuja maior expressão é dar vida à música reproduzida eletronicamente.

Pontos negativos

Ausência de controle remoto.


ESPECIFICAÇÕES
EntradasCD, FM, AUX (RCA)
SaídaRCA
Distorção Harmônica Total0,04%
Relação sinal-ruído120 dB
Resposta de frequência10 – 50.000 Hz
Requisitos de energiaAC 120 V, ou 220-240 V (50/ 60Hz)
Consumo de energia40 W
Dimensões (L x A x P)390 × 115 × 240 mm
Peso5,5 kg
PRÉ AMPLIFICADOR SHINDO AURIEGES L
Equilíbrio Tonal 12,0
Soundstage 11,0
Textura 14,0
Transientes 12,0
Dinâmica 11,0
Corpo Harmônico 12,0
Organicidade 13,0
Musicalidade 14,0
Total 99,0
VOCAL
ROCK, POP
JAZZ, BLUES
MÚSICA DE CÂMARA
SINFÔNICA
ESTADODAARTE



KW Hi Fi
fernando@kwhifi.com.br
US$ 6.000

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