Espaço Aberto: O AUDIÓFILO CHEESEBURGER

Editorial: O VINIL ECOLOGICAMENTE CORRETO SERÁ LOGO UMA REALIDADE?
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Christian Pruks
christian@clubedoaudio.com.br

Muitas vezes, na minha trajetória audiófila, me peguei (e pego!) fazendo uma reflexão sobre os caminhos tomados, e os caminhos e objetivos possíveis.

Digamos que eu seja um ‘carrófilo’, aficionado por carros – não dá para eu ter como objetivo, praticamente impossível de ser satisfeito, rodar metade da semana de Rolls & Royce e a outra metade de Porsche. É muito frustrante estabelecer objetivos inatingíveis – é a receita para a perda de prazer com qualquer hobby…

O que é possível atingir uma pessoa normal? Até onde é possível a maioria esmagadora dos seres humanos chegarem, na audiófilia?

Apenas em algumas certas categorias de preço, as chamadas ‘de entrada’.

E isso é frustrante? Bom, era 10 anos atrás, para falar a verdade. Hoje existem numerosas opções de sistemas de 10 mil reais para ambientes pequenos, e de até uns 15 mil reais para ambientes médios, que não só atropelam o que existia pelo mesmo preço em 2010, como realmente são muito, mas muito prazerosos de ouvir!

Hoje em dia eu vejo que existem dois objetivos separados, com sistemas de áudio, pelos audiófilos. O primeiro é o obter o som mais real possível, pois – na boa – nada bate a realidade, e não existe argumento possível que vá dizer que uma fantasia é melhor do que a realidade se estivermos falando de belezas naturais e de belezas artísticas (como a música). E você não vai obter algo perto da realidade com equipamentos valvulados antigos e caixas tipo cornetas. Você tem que trabalhar para obter a melhor definição e resolução possíveis com o mínimo de perda e interferência e distorção (do conteúdo) possíveis, e trabalhar muito para não entrar no reino do artificial ou da ‘super realidade’, que é uma fantasia que algumas pessoas adoram hoje em dia. E este é o trabalho de uma vida inteira, e também é a ‘conta bancária’ de uma vida inteira. E o privilégio de pouquíssimos.

Ou você pode obter o que mais lhe agrada sonoramente e contentar-se com um pouco de falta de informação, que não será tão resolutivo, que ‘enganará’ bem seus ouvidos, que terá partes faltando, em que faltará toda aquela ‘correção’, e que você terá que se contentar sabendo de tudo isso. Um sistema audiófilo ‘comida de boteco’, entremeado com um pouco de ‘comida da vovó’, onde o tempero e o preparo são mais importantes do que ter ingredientes gourmet vindos das melhores cozinhas e empórios do mundo. Algo onde o prazer e a satisfação de curtir aquilo, vêm antes do sonho muitas vezes irrealizável de obter o Melhor do Mundo. “Não é gourmet, mas é muito gostoso, como pastel de feira!”. Só é preciso entender que esse sistema prazeroso – ou essa busca de prazer pelos meios de um sistema mais simples – não bate ou se iguala ao que é realmente bom. Não são competitivos em qualidade Real, em Correção, em Referência com o mundo real, com a música real.

E é aqui, nesta altura deste texto, que aparece muita gente com sistemas tortos e que soam muito mal, buscam validação para esses sistemas. E é aqui que todo mundo que está lendo vai dizer que eu estou me contradizendo, mas eu sustento que a escolha do melhor carro antigo, por exemplo, tem que ser baseada também na capacidade dele funcionar como um carro, em sua performance, conforto, segurança e dirigibilidade. Vou refrasear: o sistema mais barato, focado no prazer de ouvir e de se conviver com suas deficiências (frente àquilo que há de melhor), também tem que ser escolhido, montado, casado e regulado de acordo com preceitos e princípios que regulam o conceito de Qualidade – e esses equipamentos são, quando bons e bem bolados, todos baseados nesse tal ideia de Qualidade, baseados em Referência e em Metodologia. Não estou aqui fazendo propaganda do que esta revista tem a oferecer, mas nosso trabalho aqui sempre teve essa preocupação em indicar e esclarecer sobre o quão realmente é bom, sobre qual o nível de qualidade que algo tem ou pode ter, seja barato, médio ou caro – daí nosso sistema de notas e de categorização.

Eu sou um desses audiófilos do segundo exemplo – um ‘Audiófilo Cheeseburger’, com boa carne de bom preço, uma espessa camada de gorgonzola barato do supermercado de bairro, nada gourmet… E uma maionese decente. Te garanto que tem muito gourmet comendo a mesma coisa, nas mesas ao lado.

E eu nunca posso me gabar de que meu Sistema de Som ‘Cheeseburger’ é ‘o melhor’, porque não é. Mas é escolhido com critério e esmero, para me dar prazer em ouvir música com o orçamento mais adequado à minha realidade.

Saudações, então, a partir do meu Cheeseburger acompanhado de um suco geladinho – nenhum gourmet realista fugiria dele!

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