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Fernando Andrette
fernando@clubedoaudio.com.br

Essa nossa viagem ficou bem longa, mas não se preocupem que está acabando.

O que me tranquiliza é saber que inúmeros dos nossos leitores, conseguiram não só entender a essência de nossa Metodologia como passaram a colocar os exemplos sugeridos de cada quesito para avaliar seus sistemas, e compartilhar com amigos.

Um feedback dado por um leitor de apenas 23 anos foi bastante elucidativo, de como é difícil entender o que é realmente ‘crucial’ para fazermos upgrades, quando já montamos nosso primeiro sistema e desejamos dar um segundo passo.

Ele nos contou que pediu a ajuda para audiófilos mais ‘rodados’, e que cada um na verdade indicou suas escolhas pessoais e não o que seria preciso para melhorar o sistema que ele já possui. E foram tantas sugestões díspares, que ele achou que não conseguiria jamais aprimorar seu sistema. Pois faltava a ele alguém disposto a apontar o que ele precisava para iniciar todo esse processo. E que esta série de artigos Opinião foi, para ele, mais que uma bússola orientadora, pois à medida que foi usando os exemplos dados para cada quesito, ele pode simultaneamente observar como seu sistema reagia e o que ele precisava aprender e ‘memorizar’, para observar como soava em outros setups.

E sua conclusão foi interessante e bastante preocupante: “Ao longo desses meses fui reunindo a lista de músicas por você indicadas, e procurando memorizar suas observações do que eu precisava ouvir. É como tatear no escuro, até que sua mente vá moldando o espaço a sua volta sem o uso da visão. Nesse caso, ir moldando as características de cada gravação e descobrir através das dicas se aquilo está soando certo ou errado. Interessante que no começo somos torcedores de nossos sistemas, e fingimos quando algo descrito como errado aconteceu e ouvimos, como menos grave do que parece. Mas quando ouvi esse mesmo resultado em sistemas muito mais caros e de audiófilos muito mais ‘experientes’, é que entendi que pelo menos os audiófilos que conheço nomeiam duas ou três qualidades que lhe agradam, e o resto é simplesmente descartado. E quando eu ingenuamente apontava que aquilo era no mínimo estranho, a resposta que obtive é que aquilo para o dono do sistema não era relevante. Agora ao menos descobri que terei que seguir sozinho esse caminho, e estou feliz em conseguir detectar o que preciso corrigir para seguir em frente. O que mais gostaria é que a revista pudesse nos mostrar sistemas bem ajustados para eu ampliar minha margem de segurança e de referência.”

Isso irá ocorrer, e já tem data e hora para acontecer, caro Marcos Paulo (leia a seção Eventos, nesta edição).

Chegamos, como diz um querido amigo, à ‘cereja do bolo’ de nossa Metodologia – a Organicidade – aquela sensação de materialização física do acontecimento musical à nossa frente e, outras vezes, de sermos lançados no mesmo espaço em que a gravação foi realizada.

Diria que essa é a sensação que mais impressiona o sexo feminino, quando as esposas acompanham os maridos ou namorados em nossa Sala de Referência. Para elas, mais que um palco grandioso, ou variações dinâmicas avassaladoras, são literalmente seduzidas pela materialização do acontecimento musical à sua frente.

Concordo que se trata de uma sensação psicoacústica poderosa, e que pode levar muitos ouvintes às lágrimas!

No entanto, nosso cérebro é muito astuto em se render a esse fenômeno auditivo, e sempre estará à espreita de falhas, pois nossa mente é bastante perspicaz em separar a realidade da ‘ilusão’, por mais que esta seja muito bem feita.

O que o amigo leitor, pouco habituado à nossa Metodologia, precisa compreender é que Organicidade é a soma dos outros seis quesitos, e que estes precisam estar perfeitamente alinhados, sincronizados e que se manifestem na mesma intensidade e proporção.

Um bom exemplo? Vozes: pegue a voz do cantor lírico José Cura, no seu disco Anhelo, que usamos para fechar a nota desse quesito – e se o corpo harmônico de sua potente e bela voz parecer do tamanho de uma boca de hipopótamo, seu cérebro não irá cair nessa ilusão. O contrário – a voz do tamanho de uma pizza brotinho – idem.

ESTE ÁLBUM NÃO POSSUI VERSÃO STREAMING LINK PARA A AMAZON – MÍDIA FÍSICA

Outro exemplo: Genuinamente Brasileiro Volume 2 – faixa 7 – Passarim, piano solo do amigo André Mehmari, em que o ouvinte literalmente ‘vê’ as mãos deslizando no piano, e se quando ele toca a última oitava da mão direita, essas notas tiverem som de vidro (por um desequilíbrio tonal nas altas), seu cérebro simplesmente será desconectado instantaneamente da ilusão do piano estar à sua frente.

OUÇA GENUINAMENTE BRASILEIRO VOLUME 2, NO TIDAL.

O mesmo efeito pode ocorrer com transientes que não primam por exatidão e autoridade, ou com texturas pobres e confusas, que nos façam perder a total atenção no todo.

Então, o que todos precisamos saber é que o ‘efeito’ não ocorre se tudo não estiver devidamente em seu lugar. E extrair essa qualidade de um sistema leva tempo, meu amigo.

Muitos audiófilos se contentam com, e passam a vida mostrando em seus sistemas, uma ou duas gravações de qualidade técnica primorosa, e se auto enganando que chegaram lá!

E com as gravações de alto nível, não primorosas, esse efeito pode ocorrer? Claro, desde que o sistema esteja apto, sem nenhum problema.

Gosto muito de mostrar o famoso disco laranja do guitarrista Joe Satriani, em que tocaram todos em tempo real e o resultado é magnífico, pois em sistemas ‘afinados’, somos ‘jogados aos leões’. Estamos ali dentro da sala de gravação com os músicos, e não na técnica. Lembro que quando indiquei esse disco na antiga seção CDs do Mês, um distribuidor me ligou indignado me dizendo que a gravação era horrível e ‘inaudível’ em um sistema hi-end de verdade.

OUÇA JOE SATRIANI – JOE SATRIANI, NO TIDAL.

Aliás ouvi centenas de vezes essas reclamações nos corredores dos hi-end shows, nos cursos, de leitores inconformados que nossos discos soaram muito ruim em seus sistemas! Existe uma máxima que todo audiófilo gosta de usar para defender seus sistemas, que é: um setup hi-end sempre irá mostrar os defeitos das gravações.

Mas esses audiófilos não sabem o que responder quando as gravações que soaram ruins em seu sistema, soam muito bem em outros sistemas.

Como isso é possível?

Uma gravação tecnicamente limitada, jamais soará bem em nenhum sistema. Agora, se soa bem e correto em alguns sistemas, e em outros não, acredite, o problema não é da gravação, é do sistema!

Aceitar essa realidade exige muito mais humildade do que ter uma audição treinada.

O disco do Satriani soa magnífico em sistemas que possuem excelente equilíbrio tonal, generoso soundstage, impecável textura, transientes precisos, e folga nas variações dinâmicas.

E que tenham uma reprodução correta do corpo harmônico.

Se o seu sistema estiver à altura do desafio, será um deleite apagar a luz, deixar a macro chegar a picos de 94 dB e a média entre 80 e 86 dB, relaxar e ser transportado em poucos segundos para a sala de gravação.

Você novamente ‘verá’ o que está ouvindo, ao alcance dos seus olhos e mãos!

Quando lançamos o Genuinamente Vol. 2, por cortesia mandei para o editor de uma revista na Europa, com quem mantínhamos contato regular para troca de impressões dos nossos mercados. Fiquei assustado com sua observação a respeito da qualidade do disco, quando ele me disse que o repertório era ótimo, mas não conseguiu ouvir nenhuma faixa em seu sistema, somente no som de seu carro! Em vez de me ofender com sua falta de ‘tato’, agradeci por ele me dar uma ideia exata do quanto o seu sistema era limitado!

Já escrevi aqui mesmo, uma frase muito pertinente do meu pai, que continua perfeita para os dias de hoje; “Quer saber o quanto um audiófilo é assertivo? Ouça seu sistema”.

Quando o audiófilo fala muito e vive rodeado de teorias mentais em seus discursos e observações, e mostra pouco na prática, sabemos que entre o discurso e a realidade existe um abismo!

Quando, nos Cursos, me perguntavam como eu posso saber se a Organicidade está correta, minha resposta sempre causou muito ‘choque’: O único que pode lhe dizer se está correto ou não, será sua mente!

Porém a Organicidade tem uma qualidade inerente apenas a ela, e a nenhum outro quesito da Metodologia. A de fazer a ponte correta entre todos os seis quesitos que a estruturam, e a musicalidade.

Nunca um sistema com excelente materialização física será pobre ou torto musicalmente. O problema é que as pessoas possuem uma ideia absolutamente distorcida de musicalidade. A esmagadora maioria confunde eufonia com musicalidade, e isso causa uma série de problemas principalmente a quem está começando.

Esse é um assunto para o último quesito desta série de artigos, mas não posso deixar de citar uma pegadinha que fiz com um grupo de alunos de engenharia de áudio, em uma palestra que ministrei alguns anos atrás.

A discussão era se os amplificadores e prés de microfone valvulados eram mais musicais que os transistorizados. Aí eu mostrei para eles uma gravação do Shostakovich para piano e cello, tocado primeiro por dois jovens talentosos iniciando sua carreira e depois a mesma peça por dois virtuoses.

E perguntei a eles qual soou mais correto e musical? Unanimemente todos responderam a segunda.

Aí mostrei a ficha técnica de ambas as gravações e, além de terem sido usados os mesmos microfones, na mesma sala, pelo mesmo engenheiro de gravação e o mesmo pré de microfone e monitores, a diferença estava apenas na qualidade dos músicos e não na escolha do equipamento.

No mundo audiófilo, não é diferente.

Um sistema musical será aquele mais correto em todos os quesitos, em um setup o mais neutro possível e que, nas gravações realizadas com virtuosos, sempre irá soar muito mais agradável aos nossos ouvidos e coração.

Mês que vem falaremos a fundo sobre Musicalidade.

Até lá se divirtam com os três exemplos de Organicidade: José Cura (Anhelo), Genuinamente Brasileiro Vol. 2 (faixa 7), e o Joe Satriani (capa laranja).

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