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TOCA-DISCOS THORENS TD 403 DD

Fernando Andrette

Nossos leitores nos pedem cada vez mais enfaticamente, que testemos toca-discos completos na faixa de até 15 mil reais. Me parece que esse é o ‘teto’ para muitos que estão tentando voltar a curtir o analógico, e desejam algo definitivo.

Assim como caixas acústicas cada vez mais impressionantes abaixo de 15 mil reais, conseguimos garimpar no mercado de toca-discos um Thorens direct-drive / Plug & play, que já vem com uma boa cápsula montada e pré ajustada, para o usuário poder rapidamente curtir seus LPs.

Em relação ao seu irmão mais modesto, o 402 que já testamos (leia teste na Edição 270), o 403 parece realmente, até no visual, de uma classe superior, com seu novo braço e uma cápsula MM mais refinada que a do 402. Isso é bastante animador, e se o seu orçamento está nesse patamar, o 403 DD deve ser colocado em seu radar de opções.

A Thorens disponibiliza dois acabamentos: preto em verniz brilhante, e nogueira. Ambos realçam muito bem com a base de alumínio escovado e anodizado, que lhe dá um ar clássico/moderno.

A base do 403 DD é colada no gabinete de MDF através de uma fita adesiva especial, com um efeito de absorção de vibrações externas. O novo motor é parafusado sob a plataforma, e possui um torque suave e precisa, por isso mesmo, de alguns segundos para estabilizar a velocidade. Segundo o fabricante, esse novo motor é muito preciso e silencioso, mas ainda que seja um direct-drive, não será uma opção para DJs.

O eixo utiliza um pino de latão ligeiramente cônico, que sustenta a plataforma giratória. E o prato do 403 DD tem 22 milímetros de altura e pesa 1,5 kg. Objetivamente, quanto mais pesado o prato, maior a inércia e melhor precisão na velocidade.

O botão liga/desliga fica bem na frente do braço, portanto muito cuidado, aos não habituados com o manuseio de toca-discos, para não haver risco de esbarrar na agulha.

O braço do 403 DD é o TP 150, criado pelo engenheiro Helmut Thiele, que vem desenvolvendo os novos braços da Thorens há uma década. Segundo o próprio Helmut, o TP 150 é uma homenagem ao braço EMT 929, e pode ser usado com uma centena de cápsulas, ainda que sua massa efetiva seja de 14 gramas. Esse braço permite a troca do shell, possibilitando que o usuário troque cápsulas em questões de minutos. A forma em ‘J’ do braço minimiza o erro de ângulo de rastreamento tangencial, na leitura do sulco dos discos.

A cápsula já vem de fábrica alinhada no braço, e totalmente ajustada horizontalmente. O ajuste do VTA (altura do braço em relação ao prato), que irá determinar o ângulo da agulha no sulco do disco, pode ser facilmente verificado bastando girar o disco perfurado de aço inoxidável no bloco de rolamento, usando a chave fornecida. No caso do 403 DD enviado para teste, nem o ajuste de VTA foi necessário refazer.

Só tirei a dúvida do peso da cápsula usando uma balança digital da Ortofon.

O fabricante dá duas opções de cápsulas para o consumidor: a Ortofon 2M Blue (MM), ou a TAS 1500 (MC), feita sob especificação da própria Thorens pela Audio Technica. No nosso caso, recebemos para testes com essa primeira opção.

Verificado o peso e o ajuste fino do anti-skating, foi só colocar o tapete de borracha (que acabei alternando entre o original de fábrica e o da Origin Live) e o clamp também da Origin Live – e ele estava pronto para entrar em atividade.
Deixamos a cápsula amaciando por 20 horas, ajustamos o pré de phono Gold Note PH-1000 para cápsula MM, e o ouvimos com o pré e power da Elipson (leia Teste 1 nesta edição), com o integrado Audiolab 6000 e com as seguintes caixas: Audiovector QR 5 (leia Teste 2 nesta edição), Harbeth 30.2 DHX, Wharfedale Linton 85 Anos, e Estelon X Diamond Mk2.

O Thorens 403 DD irá surpreender muitos audiófilos que já ouviram bons toca-discos de entrada, e não se convenceram que valia esse investimento para voltar a ouvir analógico. O que ficou evidente é que ele pode render até mais do que com as opções de cápsulas que o fabricante oferece. No entanto, já com a cápsula enviada foi possível observar como sua leitura é bastante segura, precisa e convincente.

O equilíbrio tonal dessa cápsula Ortofon, trabalha muito bem em conjunto com o braço, permitindo graves com muita energia, peso e definição. Esqueça aquele grave ‘gordo’, lento e sujo das cápsulas dos tristes anos de reserva de mercado da Leson, ou mesmo as antigas cápsulas dos anos 70, de entrada. O grave aqui é ágil, ritmado e contagiante.
Ouvi alguns LPs de rock progressivo do Gentle Giant, Genesis e Yes, e fiquei surpreso com o recorte e peso dos bumbos e do contrabaixo Rickenbacker RM 1999 do Chris Squire, no The Yes Album.

Já na primeira faixa do disco – Yours Is No Disgrace, deu para perceber que o 403 DD, com uma simples mas correta cápsula de entrada, tinha enorme pedigree, de toca-discos de nível intermediário e não de entrada.

A mesma surpresa no Genesis – Live, uma gravação complicada, mal captada e sofrivelmente mixada, que se o equilíbrio tonal do conjunto cápsula /braço não for bom, se torna inaudível.

A região média, além de correta, não comete o erro de ser proeminente na tentativa de disfarçar limitações nas duas pontas (algo muito frequente em cápsulas MM de entrada). Julgo aqui, mais uma vez, esse mérito ter que ser repartido com o excelente braço!

E os agudos, ainda que não possuam nem a extensão e o refinamento das cápsulas intermediárias MC, não fazem feio. Pois possuem arejamento e decaimento honesto.

O que você precisa saber meu amigo, é que o 403 DD pode saltar de nível de performance, subindo de patamar, desde que você possua um setup analógico para tanto.

O que o 403 DD oferece, de saída, é um nível de performance que você não terá em toca-discos na faixa até 10 mil reais. Então, se você possui uma coleção de discos bem conservados, e deseja o movimento definitivo, faça esse esforço e junte a diferença e ouça o Thorens 403 DD.
Com a cápsula que veio, o soundstage tem bom foco, recorte e boa lateralidade e altura. Faltando melhor ambiência (consequência direta da extensão no agudo da cápsula), e maior profundidade. Não que uma orquestra vá soar como se todos os músicos estivessem empilhados uns sobre os outros em um elevador. Mas aquela folga e arejamento, que nos permite ouvir os solistas sem perder o todo, será mais complicada de ouvir. Isso se você curte grandes obras musicais clássicas. Se sua praia for pequenos grupos, nem se preocupe com esse detalhe.

Os transientes na marcação de tempo e ritmo são exemplares para uma cápsula de entrada. Gostei muito, principalmente ouvindo rock e trios de jazz (piano, baixo e bateria).

As texturas são corretas, graças ao bom equilíbrio tonal da cápsula. Pode melhorar? Óbvio que pode, mas para isso será preciso investir em uma 2M Black por exemplo (ou se o seu pré de phono permitir cápsulas MC, uma Hana ML).
Aí, meu amigo, tenha a certeza que o 403 DD subirá exponencialmente de patamar!

Uma vez, no corredor de um Hi End Show, ouvi a seguinte discussão entre 4 jovens audiófilos, a respeito de quem reproduzia melhor a macrodinâmica, o digital ou o analógico. E percebi que o placar estava 3 x 1 já que a maioria com enorme veemência defendeu que o digital é muito superior na resposta de macrodinâmica. Me chamaram, e eu para me desvencilhar do enrosco, os convidei para a apresentação em nossa sala à noite, de uma playlist com analógico e digital.

E separei o Firebird, do Stravinsky, da gravadora Telarc – que tenho versões em LP, SACD e CD. E coloquei um trecho com enorme variação dinâmica, logo na entrada. Claro que comecei pelo mais contido em termos de macrodinâmica (vocês já adivinharam?). E fiquei olhando para os quatro que estavam bem à frente na sala. Os três orgulhosos com a resposta do sistema, ao reproduzir a faixa no SACD, estufaram o peito para se declararem vitoriosos. Foi quando coloquei o LP. Dois dos três defensores do digital quase pularam da cadeira ao ouvir o LP. Aí foi a vez do defensor do analógico encher o peito e dizer bem alto: “Eu não disse?”.

Gosto de fechar a nota com analógico exatamente com esse LP do Firebird, pois a gravação é excepcional e nos permite ter uma ideia clara do nível deste quesito, na avaliação de TDs, cápsulas, braços e prés de phono!
A limitação aqui, mais uma vez, foi da cápsula. Ainda assim, o peso, deslocamento de ar, crescendos e sustentação, deixam muito CD-Player e DAC de 5 a 8 mil dólares em apuros.

Assim como no quesito textura, a microdinâmica de cápsulas de entrada MM são menos precisas, mas nada que comprometa ouvir as informações musicais escritas em pianíssimo na partitura.

O corpo harmônico de qualquer cápsula MM, desde as mais singelas às mais sofisticadas, sempre foram excelentes em reproduzir o corpo dos instrumentos. Costumo lembrar aos nossos leitores que fomos salvos de ter que engolir a primeira safra de Players digitais, graças ao corpo harmônico das cápsulas MM, que deixaram escancarado o quanto era pobre e anoréxico o corpo de todas as gravações digitais da época.

Pois se as cápsulas MM não tivessem essa virtude, certamente muitos audiófilos menos experientes e com pouca referência de música ao vivo não amplificada, teriam aceitado goela abaixo, aquela imagem sonora de música clássica do tamanho de pizza brotinho.

Ouvi, para fechar a nota deste quesito do 403 DD, gravações da Billie Holiday, Miles Davis, Bill Evans, Duke Ellington e Sinatra, e o corpo harmônico está lá, fidedigno como foi gravado!

Com esse conjunto de qualidades, é natural que a sensação de materialização física se faça à nossa frente, ainda que com uma cápsula mais de entrada. Essa é a magia do analógico, nos remeter, graças ao corpo harmônico, à macro dinâmica e ao correto equilíbrio tonal, à música ao vivo.

Pois o acontecimento musical não é reproduzido de forma mesquinha e contida. Permitindo ao nosso cérebro reconhecer que existe um maior paralelismo ao que sentimos e observamos quando ouvimos música não amplificada.

CONCLUSÃO

Qual a única razão de uma revista especializada? Informar ao público interessado o que de melhor temos no mercado.
E como fazer isso de forma objetiva? Tendo Metodologia, Referência e, sobretudo, experiência.

Poder compartilhar com vocês todos os meses de produtos que estão chegando ao mercado e cabem no orçamento, ainda que tenhamos que fazer apertos e escolhas para realizar esse sonho, é a parte mais legal desse nosso trabalho.
O que posso reiteradamente dizer a vocês é que, nos nossos 27 anos de existência, esse é o momento mais auspicioso desde que voltamos à normalidade de um mercado sem reserva.

Estão chegando inúmeros novos produtos com uma relação custo/performance incrível. E quando digo incrível, não estou me referindo apenas ao produto ser correto e de valor menor. Falo do melômano e audiófilo terem a chance de montar um sistema hi-end definitivo! Com o qual, bem casado em uma sala dignamente ajustada acusticamente, ele irá se emocionar com o resultado.

O Thorens TD 403 DD tem um enorme espectro de crescimento, podendo começar já soando honesto pelo pacote oferecido de fábrica, e que pode crescer muito através de upgrades pontuais na cápsula, pré de phono, etc.

Feito por um fabricante que tem uma belíssima história no mercado hi-end, e que parece ter entendido perfeitamente o que o novo consumidor espera de produtos de áudio de alta qualidade.

O TD 403 DD merece lugar de destaque nesse concorrido mercado intermediário de toca-discos!

Nota: 79,5
AVMAG #296
KW Hi-Fi
fernando@kwhifi.com.br
(48) 98418.2801
R$ 12.900

TOCA-DISCOS ROKSAN ATTESSA

Fernando Andrette

Muitos leitores, no auge da pandemia, compartilharam que estavam propensos a resgatar valores há muito tempo esquecidos em garagens e sótãos, como LPs e surrados toca-discos de seus pais ou irmãos mais velhos.

O que mais chamou minha atenção é o quanto esses leitores desconheciam o terreno que estavam se embrenhando (o que um isolamento longo não nos causa…), e as dúvidas eram das mais bizarras às mais sensatas.

Escrevi inúmeras vezes, nesses 28 anos, que ter um setup analógico extrapola a todos os impulsos, dos mais racionais aos emocionais. E como virou moda, o custo para iniciar do zero se tornou exorbitante até mesmo para audiófilos mais abonados. Então, meu amigo, antes de ler esta minha avaliação do toca-discos Attessa da Roksan, certifique-se que você realmente deseja conhecer mais uma opção consistente no segmento de entrada de toca-discos, produzido por um fabricante com uma longa folha corrida de bons serviços.

Todo fã de analógico certamente, ao ouvir o nome Roksan, irá se lembrar do Xerxes, lançado em 1985, que causou um alvoroço no mercado por não usar molas em sua plataforma e ter uma performance impressionante. Quarenta anos depois do Xerxes, a Roksan apresenta ao mercado seu toca-discos mais modesto, porém ainda extremamente meticuloso e bem construído.

O fabricante disponibiliza o Attessa em dois acabamentos: branco e preto. Um primeiro contato visual mostra um conjunto braço, prato e plataforma, bastante vistoso e limpo. Eu gosto bastante, pois permite aos ‘marinheiros de primeira viagem’ perder um pouco do receio de que são mais frágeis do que realmente são.

Gosto do acabamento arredondado da base, que permite ver o quanto detalhes simples podem enobrecer o acabamento final. Seu prato de vidro faz um belo contraste com a base, e o tapete de feltro é honesto e funcional – mas que ao ser substituído pelo tapete da Origin Live, melhorou expressivamente tanto no ataque das notas como na precisão e recorte das imagens sonoras de solistas e naipes.

O prato tem 10 mm, e possui uma borda de alumínio anodizado. Seus comandos de velocidade e acionamento da correia são precisos, e suficientemente silenciosos para não atrapalhar nas passagens em pianíssimo da música.
Você pode alterar no comando a velocidade de 33 para 45 RPM, e essa mudança é feita com uma micro pausa, antes do motor ganhar velocidade e estabilizar. Um LED pisca até a velocidade ser estabilizada, mostrando ao usuário que o Attessa está pronto para tocar.

Nunca fui fã de braços unipivot, pois como tenho uma mão pesada, a sensação que tenho é que vou danificar o braço cada vez que tiro e coloco um disco. Mas tudo é uma questão de jeito, e conheço inúmeros audiófilos que não abrem mão de seus braços unipivot, pois defendem que seu rastreamento dos sulcos é ainda mais correto e preciso.

Eu não teria – mas, como disse, não por limitações na performance e sim pela falta de ‘tato’ no manuseio diário.
O Attessa vem com uma cápsula Dana MM de fábrica, também da Roksan. Segundo o fabricante, a Dana utiliza uma agulha de diamante de ponta elíptica de diamante/titânio, tensão de saída de 3,5 mV, impedância de 47 Kohms (como toda MM). E para os que estão comprando seu primeiro toca-discos ‘de verdade’, a agulha Dana pode ser reposta pelo próprio usuário (se consegue manusear um braço unipivot, consegue tranquilamente trocar a agulha quando chegar a hora).

A Roksan recomenda de 1.8 a 2.2g de peso. O trabalho do usuário é de medir a gramatura correta da cápsula com uma balança digital, travar o contrapeso depois de feito o ajuste, e o resto já vem ajustado de fábrica. Tanto que, desta vez, não precisei chamar meu escudeiro André Maltese para colocar o toca-discos para funcionar.

Para o teste utilizei os prés de phono Gold Note PH-10 e Cambridge Alva. O resto do sistema foi o de referência da revista, e a caixa a maior parte do tempo utilizada foi a Monitor Audio Platinum 200 G3.

Como o toca-discos MoFi StudioDeck +M (leia teste na edição 299) havia acabado de sair, foi fácil repassar todas as faixas da Metodologia e avaliar a performance do Roksan Attessa. São toca-discos absolutamente antagônicos – enquanto o MoFi prima pela precisão e condução do sinal com extrema autoridade, o som do Roksan é mais relaxado sem deixar de ser bastante preciso. Se você me disser que sua praia é mais música com inúmeros instrumentos e grandes variações dinâmicas, o MoFi certamente será a opção mais segura. Agora, se sua praia são pequenos grupos, vozes, instrumentos acústicos em formação de trios até quintetos, dê uma chance para o Roksan, e ele irá te surpreender.

Extremamente detalhista, ele se sente à vontade em apresentar um som mais intimista e pautado nas texturas e nuances, de como o instrumentista acaricia seu instrumento. Utilizei o termo ‘acariciar’, que pouco utilizo, ao passar as faixas mais intimistas e ficar com essa impressão.

O exemplo mais claro dessa impressão foi Beatriz, na voz de Milton Nascimento, acompanhado de piano e cordas. Foi uma apresentação menos intensa dos crescendos, porém bastante comovente na interpretação magistral de Milton.
O equilíbrio tonal da cápsula Dana carece de maior extensão em ambas as pontas sem, no entanto, deixar a sensação de agudos capados e graves sem peso. O que a Dana enaltece de maneira incisiva são a micro-dinâmica e as intencionalidades na apresentação das texturas, principalmente em toda a região média.

Para os amantes de gravações de rock dos anos 70, essa característica em gravações com pouca extensão nas duas pontas, irá soar como bálsamo aos ouvidos. Infelizmente a nossa MPB dos anos 70 está recheada de gravações tecnicamente capadas nas pontas, e que em toca-discos com cápsulas Leson ficavam indecentes. Isso não ocorrerá nem com o Attessa e nem com a Dana.

O soundstage é excelente, com uma materialização 3D do palco à sua frente, em que podemos observar a altura dos músicos, profundidade do palco e largura.

Como já escrevi, as texturas são muito bem alinhavadas no tecido musical, e somos capazes de acompanhar cada voz sem esforço nenhum.

Os transientes, depois de nos acostumarmos com a precisão do MoFi e sua cápsula também MM, fica difícil não fazer uma comparação direta. E nesse quesito, o conjunto Dana com braço do Attessa perde. Não de maneira feia, mas perde. Não que falte algo, mas aquela precisão milimétrica de tempo e ritmo é mais solta no Attessa/Dana. Nada que tire a beleza de ouvir música com enorme variação de tempo e milimétrica sem aquele ‘UAU!’ na garganta.

A dinâmica, na micro é exemplar, e na macro muito correta.

O corpo harmônico, como todo bom toca-discos e cápsula, deixa o digital se sentido envergonhado.

E a materialização física, nas excelentes gravações, estará ali ao alcance do seu olhar e mãos!

CONCLUSÃO

Se você deseja realmente iniciar uma ‘carreira’ analógica, coloque na sua mente que o investimento em um toca-disco de bom nível estará hoje acima de 15 mil reais (com cápsula MM). Se você está disposto a investir isso, e mais esse valor no pré de phono se seu integrado ou pré de linha não tiver um phono embutido, o Roksan Attessa deve estar nessa sua lista de opções a serem escutados seriamente.

Muito bem construído, feito inteiramente na Inglaterra, por um fabricante com mais de 40 anos de estrada, e com excelentes toca-discos, que estão perfeitamente funcionando ainda hoje.

Um design limpo, mas minuciosamente bem pensado e o mais importante: correto!

Como disse, existem pessoas que têm a mão de cirurgiões e irão se deliciar com um braço unipivot. Se esse é o seu caso, meu amigo, ouça-o. E se couber no seu orçamento, divirta-se! Pois ele tem muito a oferecer musicalmente.

Nota: 86,0
AVMAG #302
Mediagear
contato@mediagear.com.br
(16) 3621.7699
R$ 15.300

TOCA-DISCOS MOFI STUDIODECK +M COM CÁPSULA MASTERTRACKER

Fernando Andrette

Você irá cada vez mais ouvir falar dos produtos MoFi nas mídias especializadas – e aqui não poderia ser diferente. Apresentamos na edição de setembro a impressionante SourcePoint 10 do guru de caixas acústicas Andrew Jones, e nesta edição falaremos do toca-discos de entrada da MoFi, o StudioDeck, porém aqui com a melhor cápsula MM deste fabricante, a Master Tracker.

A estratégia da MoFi ao entrar no segmento de equipamentos de áudio hi-end, foi extremamente ousada e inteligente, pois resolveu se cercar de talentos aclamados no mercado para o desenvolvimento de seus produtos. Foi assim com a sua linha de prés de phono, para a qual convidou o falecido Tim de Paravicini, com as caixas acústicas que tivera a contratação em tempo integral de Andrew Jones, e os toca-discos com o recrutamento de Allen Perkins, famoso projetista da Spiral Groove, como engenheiro chefe dessa divisão.

A Spiral Groove foi fundada em 2005 e se dedica à fabricação de produtos analógicos, sendo o SG1.2 seu melhor toca-discos. Allen Perkins, em sua concepção, desenvolveu uma base com quatro camadas de alumínio em duas plataformas independentes. A metade superior da base isola o prato e o braço, mantendo o alinhamento crítico entre eles absolutamente isolados da vibração do motor. O prato deste revolucionário toca-discos é construído com formas irregulares, com materiais que misturam grafite e alumínio, em uma superfície não ressonante para o disco. Assim, toda a energia é transferida rapidamente do disco para o prato, e dissipada no interior do prato.

Com mais de 20 anos de experiência Allen Perkins, foi o escolhido para o desenvolvimento de todos os toca-discos da MoFi, e ele levou seu método – batizado de Balance Force Design – em que se procura uma interação total entre o design proposto e a busca de materiais, para se atingir uma engenharia equilibrada e funcional. O resultado buscado por Allen, é um equilíbrio entre física, engenharia, ciência, arte e intuição.

E que se traduz para o consumidor em produtos fáceis de operar, extremamente confiáveis e com alta performance. E o StudioDeck +M não decepciona em sua apresentação visual, e muito menos em sua performance.

Sua embalagem cumpre com a obrigação de proteger o produto, e seu acabamento surpreende pelos detalhes. Pesando no total quase 9 kg, sua base é de MDF de 35 mm de espessura com uma placa de alumínio colada nessa base, na parte superior, para criar maior massa e apoiar o braço. O prato é de Delrin de 18 mm de espessura, e foi escolhido por sua capacidade de rejeitar ruídos indesejados. O prato é acionado por uma correia de borracha em uma unidade Hurst síncrona AC de 300 RPM, isolada dentro da base do aparelho.

O rolamento invertido do prato utiliza aço, bronze e Teflon – para muitos e muitos anos de uso sem problemas, e ao mesmo tempo garantir estabilidade de rotação e maior silêncio ao girar.

O que mais impressiona neste toca-discos considerado de entrada, é seu braço de 10 polegadas e com rolamentos e esferas geralmente só utilizados em toca-discos muito mais caros. Mostrando que a MoFi economizou aonde poderia, e manteve a qualidade aonde é essencial!

O braço é de alumínio, e possibilita o ajuste de VTA, Azimute, contrapeso e antiskating.

E para isolar o toca-discos das vibrações externas, os pés antivibração foram desenvolvidos por Michael Latvis, da Harmonic Resolution Systems (HRS).

A MoFi propõe três pacotes de cápsulas – todas MM – para o StudioDeck: sua cápsula de entrada StudioTracker elíptica ‘bonded’, a UltraTracker elíptica ‘nude’, e a MasterTracker com diamante formato micro-line – que a que a German Audio optou para oferecer ao nosso mercado já instalada no aparelho.

A MasterTracker possui um gerador de ímã duplo V-Twin, que reflete o layout da cabeça de corte que originalmente faz as ranhuras do LP antes da prensagem. Com esses dois ímãs poderosos de baixa massa alinhados em uma formação em V paralela, a leitura do sulco é feita de forma mais precisa. Seu corpo é em alumínio, bem amortecido, que controla ressonâncias para que se tenha a melhor resposta possível nos graves. Seu diamante micro-line extrai as mais sutis informações do vinil. A tensão de saída é de 3mV, com resposta de frequência de 20 a 25.000 Hz, peso de 9.7 gramas, força de rastreamento de 1.8 a 2.2g, impedância de 47kOhm e capacitância de 100pF.

A montagem e afinação do MoFi foi toda feita pelo colaborador André Maltese, e como sempre foi minucioso tanto na montagem quanto na afinação.

Minha experiência com cápsulas MM atualmente é bastante restrita, já que não mantenho em meu set analógico dois braços para poder abrir o leque de opções de cápsulas, no pouco tempo que atualmente disponibilizo para fazer audições não comprometidas. Então todas as vezes que tenho a oportunidade de conhecer novas opções de cápsulas, abraço com enorme entusiasmo.

Para esse teste, tenho que confessar que isso foi um problema, pois foi difícil separar o que era a performance do toca-discos e braço, e o que era da cápsula.

Pois eles soando juntos dão um resultado surpreendente!

Lá fora, os principais testes desse toca-discos foram feitos ou com a cápsula de entrada, StudioTracker, ou com a intermediária, UltraTracker. Não li nenhum feito com a versão top de linha. O que significa para mim duas coisas: o Studio Deck possui fôlego para trabalhar com cápsulas mais refinadas, como essa MasterTracker, e que certamente essa cápsula tem ‘fôlego’ para equipar braços muito acima deste patamar.

Essa cápsula é a melhor MM que ouvi nos últimos anos, indiscutivelmente, e me deixou com vontade até mesmo de providenciar um segundo braço da Origin, mais simples, apenas para utilizar essa MM para ouvir música nos meus momentos de folga.

Mas vamos falar do conjunto Studio Deck +M, com essa MasterTracker, OK?

Existe no mercado (principalmente alimentado pelas mídias não especializadas), uma necessidade de afirmar que para o consumidor voltar a desfrutar do vinil, ele só precisa comprar um simples toca-discos e o ‘nirvana sonoro’ se materializará à sua frente!

Tenho visto até seleção dos 10 melhores toca-discos para quem quer se embrenhar nessa jornada, e as propostas são assustadoras (no sentido mais negativo é claro!). Vão de vitrolas com design ‘vintage’, à TDs de até 8 mil reais!

E alguns desses consumidores, antes de caírem nessa ‘arapuca’, têm o bom senso de pesquisar. E essas consultas têm nos chegado com certa recorrência.

É triste ‘colocar água no chopp’, mas temos que sempre alertar que não será uma boa ideia ouvir LPs nessas ‘vitrolas’! E as opções mais razoáveis de toca-discos novos começarão por volta de 15 mil reais!

E os vintage, antes de arriscar com eles, deveriam ser minuciosamente avaliados, para não adquirir um TD com folga de braço, problema de rotação, polias gastas, ruídos estranhos, etc.

E se você deseja realmente resgatar sua coleção de LPs, o toca-discos definitivo para proporcionar uma volta triunfal, custará pelo menos 20 mil reais. A partir dessa faixa de preço, as opções são realmente excelentes, e você terá a garantia que, se corretamente montado e ajustado esse toca-discos, não irá danificar seus discos.

Para o teste utilizamos os seguintes prés de phono: Gold Note PH-10 e PH-1000, Cambridge Audio Alva, e Nagra Classic Phono. O cabo de interligação foi, o tempo todo, o que vem de fábrica com o produto. Amplificadores integrados: Line Magnetic LM-805lA (leia teste na edição 298), Gold Note IS-1000 e Sunrise Lab V8 Edição de Aniversário. Caixas: MoFi SourcePoint 10, Boenicke W5, e Audiovector R5.

O fabricante não especifica quanto tempo ele sugere de amaciamento da cápsula e do cabo de braço. Então, para o teste, depois de devidamente montado, eu e o Maltese colocamos os discos que sempre utilizamos para o ajuste fino, e passamos a seleção das faixas buscando detectar as qualidades e defeitos naquela primeira impressão – a qual foi muito mais positiva do que negativa.

Com zero de amaciamento, o corpo harmônico dos instrumentos já se apresentou de forma graciosa e realista. Assim como as texturas, com paletas de cores precisas e uma facilidade de acompanhar as linhas melódicas de cada instrumento sem nenhum esforço.

Pontos negativos: uma falta de maior extensão nas altas, e uma imagem mais frontalizada.

O que posso afirmar com segurança, é que o leitor que adquirir esse pacote, poderá desfrutar e se surpreender desde o primeiro momento com as qualidades desse setup. E poderá tranquilamente ir ouvindo e percebendo o som ir desabrochando, à medida que a queima se aproxima de 40 horas.

Depois do amaciamento estabilizado, o que sobrará serão audições repletas de descobertas de detalhes, e prazer em estar ouvindo como pela primeira vez aquele disco tão cheio de significados!

A leitura dessa cápsula MM com esse braço de 10 polegadas é realmente impressionante, pois consegue nos manter atentos sem, no entanto, exigir nenhum tipo de esforço adicional.

A música se forma à nossa frente como em uma apresentação ao vivo, em que os elementos musicais vão surgindo e não temos que perder o ‘todo’ para ouvir os detalhes.

Escuto por décadas que as cápsulas MM podem até ser muito musicais, porém lhes falta o refinamento e precisão das MC e por isso a ‘leitura’ de uma MM é sempre menos emocionante! Meu amigo, se você compartilha dessa opinião, sugiro você ouvir essa MM, pois esse argumento irá cair como um castelo de areia quando a maré sobe.

Ouvi detalhes nessa cápsula com esse braço, que só costumo ‘arrancar’ de cápsulas MC muito, muito caras! Não estou falando apenas de micro-dinâmica, falo de informações complexas em que inúmeros instrumentos estão em uníssono, e que é difícil organizar mentalmente aquele momento musical, e essa MM organiza e nos entrega com enorme autoridade e folga essas passagens.

Outra excelente característica das excelentes cápsulas MM, é que o volume correto das gravações é muito mais fácil de perceber e ajustar, então para determinados gêneros musicais em que predominantemente a gravação foi feita com muita compressão, o prazer de reproduzir esses discos com uma MM deste naipe, é muito mais inteligente.

Voltando ao conjunto, a estabilidade de rotação é muito boa, para sua faixa de preço, assim como o ruído de toda a parte mecânica do toca-discos é muito baixo. Nossa Sala de Testes possui um ruído de fundo de 35 dBs, e quando eu tirava um disco para colocar outro, eu conseguia ouvir o atrito da polia apenas ao chegar perto do aparelho e colocar um novo disco para tocar. O que não é comum em toca-discos mais simples. Aliás, conheço alguns até bem mais caros, onde é possível ouvir o atrito da correia no motor ou ruído do próprio motor há mais de 2 metros de distância!

Quem tem toca-discos com esse tipo de ruído, sabe do que estou falando, e o quanto isso é irritante em ambientes bem tratados acusticamente.

Ainda que esse setup não escolha gênero musical, ouvir gravações dos anos 50 a 70 foi simplesmente as melhores audições. E tive que desenterrar discos de rock progressivo que não escutava há muito tempo, como dos grupos Focus, Gentle Giant, Supertramp, Genesis e Yes.

Foi como fazer uma viagem no tempo, e reviver passagens da minha vida quase desbotadas ou esquecidas no fundo de uma gaveta.

Foi uma fase muito intensa de uma dezena de amigos que, no entanto, fazem parte apenas daquele período, e que mesmo que tentemos nos lembrar a razão de termos perdido contato, não conseguimos ter respostas.

Só sei que foi prazeroso recordar até mesmo a loja em que determinado disco foi comprado, e quem estava presente naquela primeira audição.

Esse setup possui um senso de precisão e organização que só ouvi em setups mais caros, até então.

O que me levou a querer buscar o seu teto em termos de performance, com um pré de phono mais compatível com seu preço: o Cambridge Audio Alva. Pois não imagino que algum leitor que se interesse por esse MoFi com essa cápsula, vá investir o mesmo valor em um pré de phono como o Gold Note PH-10. Se o fizer, estará montando um setup analógico definitivo e de excelente nível, mas acredito que a maioria esmagadora se contentará, após um esforço tão grande para pegar um setup de 20 mil reais, em usar ou o próprio pré de phono que tiver encostado em casa, ou o do seu amplificador integrado.

Então resolvi realizar o resto do teste com o MoFi ligado ao Cambridge, um produto honesto mais de entrada. E o que posso dizer é que, nesse caso, o melhor será pegar o TD da MoFi ou com a cápsula de entrada ou a intermediária. Pois a MasterTracker foi a grande prejudicada nesse casamento com um pré de phono mais simples.

Pois sua beleza na apresentação de um equilíbrio tonal aberto, com graves precisos, região média detalhada e agudo com enorme extensão, foi ceifado. O mesmo ocorreu com os médios que, com a perda dos extremos, se tornaram mais proeminentes, ficando cansativos em gravações com muita compressão.

Então, a dica que dou é a seguinte: tem um pré de phono de maior qualidade, como o PH-10, então pode ir sem risco para a MasterTracker, do contrário invista na cápsula de entrada ou na intermediária.

Com o Alva, o setup MoFi se tornou mais ‘pé no chão’ – o que seria o argumento perfeito para os que acreditam que as MM são muito limitadas.

Continua sendo um bom investimento? Claro que sim, mas não com essa super MM.

O que não se pode negar, com nenhum dos prés de phono utilizados, é como esse setup é bom em transientes, dinâmica, corpo harmônico e musicalidade.

E como esses atributos só podem ser realizados com um setup analógico que já esteja em um alto nível de performance.

CONCLUSÃO


O StudioDeck com a cápsula MasterTracker não pode de maneira alguma ser confundido como um toca-discos de entrada, pois pelas suas qualidades pode perfeitamente ser o definitivo para 90% dos nossos leitores que ainda ‘teimam’ em ouvir sua coleção de LPs.

Agora, como todo toca-discos definitivo, se você deseja extrair o máximo de todo o seu potencial, lembre-se que ele merece um pré de phono do seu nível.

Depois de testar esse toca-discos, fiquei muito curioso em testar os prés de phono – um desenvolvido pelo Tim Paravicini e outro por Peter Madnick – pois acredito que estejam no mesmo nível de seus toca-discos, e possuem preços bem interessantes.

Quem sabe a German Audio se anima e traz.

Com o Gold Note PH-10 o casamento foi estupendo, e foi com ele que fechamos a nota do conjunto TD e cápsula. Mas sei que esse setup é bastante salgado, porém tudo no hi-end deve ser pensado a médio/longo prazo (principalmente aqui nesse terceiro mundo).

Se você deseja extrair o máximo de sua coleção analógica, esse setup deve estar em sua lista de audições.

Nota: 89,0
AVMAG #300
German Audio
comercial@germanaudio.com.br
(+1) 619 2436615
Preço com cápsula: R$ 18.900

TOCA-DISCOS MOFI STUDIODECK +M COM CÁPSULA MASTERTRACKER

Christian Pruks

SEGUNDA OPINIÃO – A LIÇÃO DE CASA BEM FEITA

Como bem disse o nosso altaneiro editor, Fernando Andrette, a MoFi – Mobile Fidelity – tem fincado excelentemente bem seus pés no ramo de equipamentos para áudio.

Para quem não sabe, a empresa nasceu para – e ainda pratica – a remasterização e prensagem de ‘versões’ audiófilas de numerosas gravações em vinil. E tem feito isso desde seu início, com considerável sucesso, o qual é ainda maior hoje, na era da Renascença Vinílica.

De uns anos para cá, a empresa abriu seu ramo de eletrônicos, desenvolvendo toca-discos, cápsulas (com a Audio Technica), prés de phono e, agora, caixas acústicas com o aclamado Andrew Jones, que carrega fama desde empresas como a TAD, a Pioneer e a Elac.

Quando falo que a parceria com Allen Perkins – da Spiral Groove – para o desenvolvimento dos toca-discos de vinil, significa que ele e a MoFi fizeram sua “lição de casa”, não é só a técnica do projeto, mas também a colocação do produto no mercado – o qual, na minha opinião, pode estar brigando com gente grande, o que não é fácil, mas deve obter mais reconhecimento do que está tendo, porque se destaca em qualidade na faixa de preço onde está.

O toca-discos em questão é o StudioDeck – cujas versões são: “+” que traz a cápsula de entrada StudioTracker, “+U” que vem com a cápsula intermediária UltraTracker e, finalmente, o modelo aqui testado, “+M”, que traz a topo de linha MasterTracker (cujo melhor resultado sonoro, vale dizer, se deu com o peso regulado para 2g). O único ‘defeito’ dessas cápsulas é que a agulha não é removível, não pode ser trocada pelo usuário – ou seja, é como as cápsulas MC, Moving Coil, que precisam ser enviadas para um profissional fazer o ‘retip’. Não consegui descobrir se a própria MoFi oferecerá esse serviço…

Olho para o StudioDeck no rack e vejo a quantidade de acertos que seus concorrentes, na mesma faixa de preço, não têm.

São numerosos os acertos: Pés ajustáveis desenvolvidos pela HRS dedicados a lidar com vibrações e isolamento. Base de, principalmente, MDF, mas duas vezes mais grossa que o usual – quando são TDs de base rígida (que prefiro) e não suspensa. Inserção de alumínio na base, para haver mais de um material que tenha ressonância diferente. Braço que não tenta inventar nada de novo, solidamente construído, simples e com a rigidez e estabilidade do rolamento tipo gimbal. Rolamento de prato invertido, praticamente seco, com teflon e bronze. Prato de Delrin, um material que é inerte, mas melhor em ressonância que o acrílico, por exemplo, e que ‘casa’ fisicamente com o próprio material vinil dos LPs. Conectores RCA fêmea no painel traseiro, para o uso de qualquer cabo RCA, permitindo upgrades.

E isso tudo muito bem acertado pelas mãos de Perkins.

Cápsulas MM, Moving Magnet, o tipo mais comum e de menor custo do mercado, sempre tiveram dificuldades em obter maior definição e detalhe, porém sempre tiveram graves cheios. O que fazer, no caso, para obter definição? Além de um capricho em seu corpo e motor (ímã e bobina), usa-se uma agulha com diamante de formato mais complexo e mais fino, que obtém mais informações do sulco e com menos ruído mecânico.

E assim surgem cápsulas como a linha MM da MoFi. Especialmente a MasterTracker, com seu diamante Micro-Line.
Passei algumas semanas ouvindo o StudioDeck +M com o amplificador integrado IS-1000 da italiana Gold Note, com seu excelente pré de phono interno, e as caixas acústicas torre Elac Debut 2.0 F5.2. Excelente combinação!

O melhor aspecto do toca-discos StudioDeck +M são seus médios: conseguem ser amplos, poderosos, reveladores e, ainda assim, altamente generosos com discos mais antigos ou com gravações mais emboladas, comprimidas. Uma altíssima raridade, principalmente no segmento de entrada: ouvir esses discos de rock/pop com baixa fadiga e grande musicalidade!

Os graves são o segundo destaque: cheios mas, ao mesmo tempo, fiéis e reais! Ou seja, não são uma coloração, e sim uma Qualidade! Diria que esse equipamento tem um dos melhores graves que eu já ouvi no segmento de entrada. Fácil.

E no outro extremo? Não são a última palavra em extensão de agudo e brilho – ou seja, não são absolutamente nada ‘analíticos’, não vão querer competir com o digital, por exemplo. O detalhamento que o StudioDeck traz não é o de trazer luz onde não há luz, não é o de mostrar tanto detalhe que faria ele competir com o digital, ou mesmo ser “mais realista que o Rei”. Tanto que, você fica tão feliz com longas audições de lindos médios, de graves corretos e cheios ao mesmo tempo, que o agudo natural se torna o ideal.

Essa energia nos médios, combinada com o grave fora de série, me fizeram cair a ficha: o StudioDeck +M soa como um gravador de rolo decente! Acho que é essa a melhor ‘definição’ que eu posso dar para ele. Quem tem gravador de rolo, ou já ouviu um, entenderá.

A ilusão de palco oferecida por esse conjunto, merece uma menção: largo, arejado, livre, sem embolamentos entre os instrumentos, sem constrições ‘físicas’, na largura ou na profundidade.

Os outros aspectos, como Texturas (excelentes, com muita clareza nas intencionalidades), Corpo Harmônico, Dinâmica, etc, o Fernando bem abordou e pontuou no texto principal deste teste – então não tenho nada a acrescentar ou retirar.

Outra coisa que chama muito a atenção neste toca-discos, é seu silêncio mecânico – acho que é o belt-drive mais silencioso que eu já vi na vida. Impressionante!

Esse silêncio mecânico, junto com a maneira como o aparelho é estruturado, os materiais usados em sua construção e suas ressonâncias, mais a alta qualidade de seu braço, mais a qualidade de trilhagem da cápsula, tudo faz com que o ‘silêncio de fundo’ na audição seja muito, mas muito acima da média. O silêncio é tal, que a inteligibilidade é altíssima, e a separação dos instrumentos é fora do comum. E, no intervalo de faixas, em discos bem conservados, o silêncio faz parecer que você está ouvindo CD.

Os ‘defeitos’ físicos do toca-discos em si, não chegam a incomodar: o lift me pareceu meio ‘molenga’ e deu umas engripadas de vez em quando, mas acho que o uso ele melhora, e não fez nada que me prejudicasse o uso. E o contrapeso do braço podia ter a rosca mais justa – não que isso vá atrapalhar o dia a dia, mas se o toca-discos for movido, transportado, o peso terá que ser regulado novamente, para poder manter sua precisão.

CONCLUSÃO

O pacote de simplicidade física, de instalação, de operação, e o soberbo resultado sonoro, fazem o MoFi StudioDeck +M ser um toca-discos de sonho para muito real fã do vinil.

Vale notar que, sim, o toca-discos pode crescer com uma cápsula melhor, como uma boa MC. Assim como a cápsula MasterTracker, em si, é uma excelente opção de upgrade para um grande número de toca-discos do mercado – especialmente para quem gosta do som de MM, mas quer subir bem em matéria de detalhamento, de qualidade sonora.

Uma coisa eu te garanto: meus LPs (nacionais!) do grupo de rock progressivo alemão da década de 70, Triumvirat – junto com o piano de Vladimir Horowitz, a voz de Sarah Vaughn e a riqueza acústica do grupo brasileiro de jazz Nouvelle Cuisine – nunca soaram tão bem!

E há semanas eu nem encosto no digital!

TOCA-DISCOS PRO-JECT X8 COM A CÁPSULA ORTOFON QUINTET BLUE E PH-10

Fernando Andrette

Eu não testava um toca-discos deste fabricante austríaco faz mais de uma década, com certeza.

Então, quando o distribuidor no Brasil me ofereceu a oportunidade de ouvir o novo X8, lançado ano passado, aceitei de imediato.

O fato de não testar, não significa que não acompanhe os passos e os reviews lançados lá fora. E de uma empresa que por longo tempo foi mais conhecida pelo lançamento de toca-discos de entrada e, aos poucos, foi ampliando seu leque de atuação com toca-discos mais sofisticados, e que a partir do modelo Xtension 9 ampliou seu público e ganhou espaço no segmento mais acima, foi o que me levou a ficar mais atento com seus novos lançamentos da linha X.

O primeiro grande diferencial do X8 é seu braço rígido de carbono, Evo, de 9 polegadas, sendo uma evolução dos braços desse fabricante de carbono com alumínio. É feito em uma peça única com rolamentos de esfera ABEC7 em um berço de rolamento pesado em formato de C. Tanto o azimute como o VTA são ajustáveis.

A cápsula escolhida pelo fabricante, incluída no pacote, foi a excelente Ortofon Quintet Blue, MC de baixa saída. O que foi uma surpresa, sinalizando ao consumidor que o X8 é para ser instalado, ajustado e esquecer de upgrades futuros!
O X8 surpreende em todos os detalhes como uma base de MDF em acabamento nogueira, preto, branco ou laca de piano (o modelo que nos foi enviado para teste), e um prato de mais de 5 kg de liga usinado, com 3 cm de espessura. O rolamento principal invertido usa uma esfera de cerâmica com suporte magnético, para um funcionamento suave e para evitar um maior desgaste do rolamento em seu ponto de contato.

Segundo o fabricante, essa fricção é extremamente baixa, possibilitando o prato girar por até 4 minutos sem a correia.
O motor escolhido é eletronicamente acionado, e utiliza uma pequena fonte de 15V. O fabricante explica que, pelo peso do prato, a velocidade leva até 5 segundos para ser totalmente estabilizada, e daí ela é totalmente estável. O motor é incrivelmente silencioso.

E, para fechar o pacote, o X8 vem com uma excelente tampa protetora de acrílico.

Para a instalação, mais uma vez contei com o colaborador André Maltese, que não só ajustou minuciosamente o X8, como didaticamente foi me apresentando os cuidados que se deve ter para extrair desse toca-disco todo seu potencial. E se você não tiver o ferramental para o ajuste, e prática em instalação, você terá dificuldades para extrair o último sumo desse toca-discos!

Para o teste, utilizamos os seguintes prés de phono: Gold Note PH-10 e PH-1000, e o Cambridge Audio Alva Duo. Integrados: Gold Note IS-1000, pré e power Elipson, e nosso Sistema de Referência para o fechamento de nota.
Até pensei no primeiro momento em usar outras cápsulas, para observar o casamento do braço EVO com elas, mas como o ‘pacote’ vem fechado, achei que não valeria a pena. Pois o casamento da Ortofon com o braço EVO é de alto nível!

Como escrevi acima: é instalar, ajustar, ver se o pré de phono está à altura do X8, e esquecer de upgrades futuros. Pois a performance é realmente de alto nível, com uma relação custo/performance muito boa!

Eu bato na tecla apenas que será importante o pré de phono estar no mesmo nível. Pois se com o Alva Duo tudo pareceu correto, o X8 cresceu exponencialmente com o PH-10, mostrando ser o conjunto mais adequado para esse toca-discos.

Então, amigo leitor, a nota final foi com o PH-10, ok?

A Quintet Blue da Ortofon é uma cápsula bastante exigente com os braços, pois se a colocar em um braço unipivô de muito baixa massa, os graves podem soar ocos e magros. Ache o braço certo e os graves terão corpo, peso e velocidade. Acho que os engenheiros da Pro-Ject foram muito felizes na escolha dessa Ortofon para o braço EVO. Pois é audível o quanto esse casamento favoreceu o equilíbrio tonal do setup.

A Quintet sempre foi aberta o suficiente na região média, sem nunca parecer excessivamente transparente ou cansativa, e os agudos ainda que não tenham a última palavra em extensão, possuem arejamento e decaimento corretos. Nesse casamento cápsula / braço, o que predomina é um alto grau de versatilidade e convencimento de se estar fazendo o melhor em qualquer gênero musical.

Isso é essencial em toca-discos na faixa de preço do X8, pois quem investe esse valor, não deseja mais ter restrições no que escuta.

Investe a mais, justamente para poder desfrutar de audições que traduzam de maneira eficaz as qualidades do analógico!

O soundstage é preciso em termos de foco, recorte e planos.

Ainda que falte aquele arejamento final em termos de largura e profundidade, que nos fazem lembrar o quanto o analógico sempre foi muito bom em nos apresentar palcos sonoros tão realistas.

O interessante é que, para levantar essa ‘lebre’ da largura e profundidade, você precisa ouvir setups analógicos mais sofisticados, caso contrário, você nem perceberá. E se for comparar com as mídias digitais, você achará que no analógico não falta nada.

As texturas são outro ponto alto da Quintet Blue com o braço EVO. Lindas as apresentações em detalhes de cada voz, suas paletas de cores e nuances. É possível passar dias ouvindo as mesmas gravações, dissecando detalhes de intencionalidade, fraseados intrincados, sem perder o interesse pelo todo.

Assim como ouvir os transientes dessa cápsula, e sua facilidade em nos marcar o ritmo e andamento de cada compasso.

Claro que não é apenas mérito da cápsula essas virtudes. Não podemos esquecer que no analógico o que temos é a soma das partes, e se essas não estiverem perfeitamente ‘azeitadas’, a ‘magia’ não ocorre!

A dinâmica é como todo bom analógico, parte ‘nobre’ dessa topologia. Quando colocamos o X8 ligado no PH-10, a macrodinâmica cresceu muito. O primeiro disco que ouvi nessa configuração foi justamente a Sinfonia Fantástica de Berlioz, do selo Reference Recordings, uma gravação estupenda para avaliar variação dinâmica, e o X8 se sentiu à vontade, sem nenhum resquício de compressão ou frontalização nos fortíssimos. A micro é excelente, sem se sobrepor ou ter mais evidência que o acontecimento principal.

Impossível falar de algum problema com a reprodução do corpo harmônico com esse setup. É preciso mostrar aos que nunca ouviram um bom setup analógico, a beleza da reprodução dos instrumentos como piano, contrabaixo, órgão de tubo, quando foram bem captados e seu tamanho for ‘real’. Já convenci muito jovem que relutava em acreditar nas virtudes do analógico, mostrando o tamanho dos instrumentos no digital e depois reproduzindo o mesmo disco no analógico.

O acontecimento musical sempre esteve presente e materializado em nossa sala, com esse setup. Mas uma gravação soou surpreendentemente materializada: Armstrong e Ella, no disco do Cole Porter.

Uau!

Que audição inesquecível!

CONCLUSÃO

Falar em gastar 30 mil reais em um setup analógico, pode parecer uma afronta nos dias de hoje, quando muitos sonham em montar seu sistema completo com esse valor. Porém temos realidades e realidades. Distintas, sempre.
E muitos leitores me pedem upgrades finais de toca-discos completos nessa faixa de preço. Por isso mesmo eu tive o interesse de avaliar esse novo Pro-Ject, pois ele se encaixa na expectativa desses leitores.

O que posso dizer em sua defesa, é que se trata de um investimento final, desde que você tenha um pré de phono e o resto do setup no mesmo nível.

Lembre-se que, no pacote, você estará abraçando uma cápsula MC, e que por tanto você terá que ter um pré de phono apto para cápsulas MC. Também será preciso um rack de bom nível para sua instalação, pois ele não poderá, como um TD de entrada, ser instalado em uma estante ou em cima de um caixote de laranja do Ceasa (como vi recentemente um Rega P1).

Com seus devidos pares similares, local adequado, todos que fizerem esse investimento serão retribuídos com um TD de excelente nível, e que o fará ouvir seus discos com alto índice de satisfação!

E o mais legal: descobrir um universo de detalhes jamais escutados!

Se esse é seu grande objetivo para justificar você jamais ter aberto mão de sua coleção de LPs, que seja feita a sua vontade!

Nota: 93,0
AVMAG #297
Mediagear
contato@mediagear.com.br
(16) 3621.7699
R$ 32.000

TOCA-DISCOS BERGMANN MODI COM BRAÇO THOR

Fernando Andrette

Me lembro em detalhes do Hi-End Show de 2011, quando entrei na sala do importador da Gryphon e lá estava o toca-discos da Bergmann, impetuoso em toda sua graça e delicadeza, em exposição silenciosa e ainda assim chamando todas as atenções para si.

Lembro de ficar minutos apreciando aquela engenharia e design com contornos tão limpos e, ao mesmo tempo, tão sóbrios e me perguntar se ele seria muito mais que apenas belo!

Tentei junto ao importador testá-lo, mas aquele em exposição já tinha dono, então só pude apreciá-lo alguns anos depois na casa de um leitor que havia me convidado para escutar o seu sistema.

Uma década depois, finalmente recebo um telefonema do novo importador me perguntando se teríamos interesse em testar o modelo de entrada, o Modi, com também o braço mais simples, o Thor.

A resposta foi imediatamente um sonoro sim!

Finalmente ouviríamos em nossa sala um Bergmann, em condições ideais com a companhia da cápsula ZYX Ultimate Astro G, do pré de phono Gold Note PH-1000 e dois excelentes cabos de braço: Cardas Clear PC e o novo Dynamique Audio Apex (ambos emprestados por dois queridos amigos). Algo inimaginável, se o primeiro teste de um Bergmann tivesse ocorrido em 2011.

Johnnie Bergmann é um engenheiro mecânico que desde muito cedo se interessou por toca-discos. Seu primeiro sistema tinha um toca-discos Micro Seiki com um braço Rega e cápsula Ortofon. No final dos anos 80, ele leu pela primeira vez que alguns fabricantes de toca-discos estavam tentando utilizar a técnica de sustentação por ar para eliminar os atritos inerentes nos pratos e braços. E aquele artigo foi para ele fonte de estudo e inspiração que o levou, em 2008, a largar uma excelente carreira e lançar seu primeiro toca-discos, o Sindre.

Era o início de uma verdadeira aventura na busca de um toca-discos de braço de tracionamento linear, em que todos os obstáculos dessa tecnologia fossem corrigidos e, acima de tudo, tivesse um nível de performance inigualável!
Rapidamente Johnnie Bergmann percebeu que, para atingir tão alto desafio, seria necessário não depender de fornecedores e produzir peça por peça internamente, em sua oficina na Dinamarca, para ter total controle de qualidade.

Às vezes pensamos que determinadas pessoas ‘extrapolam’, em seu meticuloso controle de qualidade, até nos depararmos com os resultados conquistados com critérios tão rigorosos. Não confundam, por favor, com os perfeccionistas que passam a vida sem colocar suas ideias em prática, justamente por nunca encontrarem a ‘situação’ ideal. Falo de pessoas de ‘carne e osso’, humanas, que acumulam tão precioso conhecimento, que conseguem ter controle absoluto de todas as etapas para materializar seus objetivos.

Eu me coloco nessa situação, pois ao ter em mãos por três meses o Modi, e utilizá-lo por mais de 12 horas diariamente, é que me ative ao quanto aquela aparente ‘simplicidade’ é apenas a ponta do iceberg! Para que o leitor possa acompanhar a magnitude do resultado dos toca-discos da Bergmann, temos que ter em mente a ideia inicial a que este engenheiro dinamarquês se propôs, que foi a de aperfeiçoar as técnicas de rolamento por ar como a forma ideal de construir toca-discos e braços sem o ruído mecânico e o atrito.

Ora, muitos outros fabricantes se propuseram a esse mesmo desafio e os obstáculos no caminho foram enormes. Pois o problema primordial é como projetar um rolamento pneumático que tenha durabilidade, confiabilidade e ao mesmo tempo seja preciso e silencioso. Os primeiros toca-discos com rolamentos movidos a ar, tinham a inconveniência de usarem bombas de ar barulhentas, e que precisavam ficar em outro ambiente, com mangueiras de metros e mais metros, e sujeitas a todo tipo de entupimento e necessidade de limpezas regulares.

Outros fabricante então desistiram do fluxo de ar para manter o prato sem atrito, mas viram os benefícios dos braços lineares e continuaram investindo, criando braços tangenciais com cordinha (quem teve os modelos da Revox se lembrarão do inferno que era ajustar a cordinha para nivelar a cápsula), e outros usaram motores para acionarem o movimento das cápsulas.

Mas o engenheiro Bergmann sabia que a vantagem de seu braço com rolamento por ar era de longe a melhor solução em termos de performance, e ele não só chegou a um resultado primoroso, como mostrou que os problemas técnicos, tão desafiadores para muitos, tinham solução com muito de criatividade, engenhosidade e simplicidade. Sabe a velha máxima do ‘menos é mais’, que tanto descrevo nos projetos mais geniais que testamos, e que se destacaram nos 27 anos da revista?

Pois bem, a Bergmann Audio se junta a esse seleto grupo, e o faz de maneira magistral!

Enquanto eu me via incrédulo com a performance do Modi, apenas seu produto de entrada com o braço Thor que é também o mais simples, eu por várias vezes me perguntei: o que pode ser ainda melhor que esse toca-discos com essa tecnologia?

Só saberei se um dia tiver o privilégio de testar, mas imagino de antemão que se existem modelos acima do Modi, certamente existem muitas razões para assim ser.

O Modi tem muito da plataforma Galder, e também utiliza a tecnologia Trickle Down, com seu sistema de toca-discos de rolamento por ar, que permite a colocação de um segundo braço ‘convencional’. Ainda que seja um toca-discos minimalista pelo seu design e operação, sua tecnologia é tão avançada como dos modelos mais sofisticados desse fabricante e, com o uso da mesma bomba de ar sem uso de óleo, silenciosa, precisa e que desacopla tanto rolamento do braço como o do prato, minimizando a fricção do braço e do eixo do prato do toca-discos.

Como a bomba de ar é ultra silenciosa, ela ficou instalada no mesmo rack em que estava o Modi e o pré de phono Gold Note. Para se ouvir algum ruído, é preciso encostar o ouvido na bomba, caso contrário não se ouvirá nada.
O prato de alumínio é centralizado por um eixo de aço, rodando em um material de rolamento em polímero de baixo ruído e resistente a desgaste. O prato flutua em uma fina almofada de ar, que reduz o atrito mecânico drasticamente ao mínimo absoluto. Outro benefício dessa almofada de ar é que o prato fica mais isolado do ambiente, além de uma maior estabilidade de velocidade.

O prato é acionado por uma correia por um motor corrente contínua controlado por tacômetro. A comunicação entre o motor e seu controle eletrônico de velocidade é feita de maneira automática – e quando foi medida pelo equipamento da Bruel & Kjaer, a variação de velocidade nunca é maior que 0,003%.

O motor é desacoplado dos três pés por uma camada isolante de borracha esponjosa, entre o motor e os pés, impedindo que qualquer vibração passe para a base do toca-discos.

Mas a genialidade do projeto você ‘sente’ ao acionar o toca-discos e perceber suavemente o ar saindo pelo cano que sustenta o braço: são micro furos que irão manter o braço literalmente desacoplado de sua base, suspenso no ar enquanto ele desliza sobre o disco.

Se um dia, amigo leitor, você tiver um Bergmann, só não caia na besteira de achar que poderá fazer o ajuste básico e depois o ajuste fino sozinho. Será um risco e não o aconselho a nem tentar. Pois essa joia é como um relógio suíço fino, e necessita das mãos de um especialista para extrair todo o seu potencial. E não acredito que alguém que invista tão vultosa soma em um analógico desse nível, não invista em um especialista para fazer essa montagem.

Tudo é tão delicado e de uma precisão tão absurda que será preciso o ferramental correto para ajuste de peso, VTA e aprumar tanto a base do toca-discos, como (principalmente) a base do braço. Pois um braço tangencial de tração linear precisa estar rigorosamente aprumado em relação ao prato, para não haver choro e ranger de dentes com uma cápsula de alguns mil dólares danificada. Para esse super trabalho, só poderia recorrer ao amigo André Maltese, que passou mais de 4 horas para ajustar um toca-discos que visualmente parece ser uma ‘pêra doce’ a se saborear, mas que necessita de mãos e ouvidos hábeis para nos levar para o nirvana dos analógicos!

O Bergmann Modi tem apenas dois botões do seu lado direito na base, para 33 e 45 RPM, e que você precisa acionar a primeira vez para dar partida e novamente para acender um suave LED azul e esperar 14 segundos para o prato estabilizar a velocidade. Se você for impaciente ou apressado, esqueça, pois os Bergmanns não serão para o senhor.
Com a velocidade estabilizada, pode colocar o disco, ir na lateral do braço e rodar o botão até ele chegar ao fim, e o braço irá baixar suavemente.

Para o teste utilizamos nosso Sistema de Referência, alternando apenas o cabo de braço Cardas para o Dynamique, depois das 50 horas de amaciamento do cabo interno do braço Thor.

Ouvi na vida alguns modelos de toca-discos com braços de tração lineares, alguns bastante caros e famosos. E jamais me encantei ou desejei ter um. Pois a manutenção, os cuidados constantes e a facilidade com que esses braços desregulavam, me fizeram apreciar as qualidades (que são muitas em termos de precisão e inteligibilidade), mas as restrições também são muito evidentes.

Então foi com esse ‘espírito’ de curiosidade e resistência que comecei a ouvir o Modi, após o término do ajuste do Maltese. Gosto sempre de ouvir com ele os mesmos discos, para tanto ele como eu sabermos de onde é o patamar que o produto em teste está saindo.

E ao final de uma faixa do Yes – Close To The Edge, nos entreolhamos tentando definir palavras para explicar o que cada um escutou. Quando começa assim, o que posso dizer, e o Maltese idem, é que o produto já partiu de um patamar muito acima do famoso ‘promissor’. E daí em diante, nas 50 horas de amaciamento do fio interno do braço, a cada novo LP as anotações no meu diário de bordo só foram ganhando páginas e mais páginas.

No entanto, mais que a performance, o assombro na resposta de macrodinâmica e no tempo e ritmo, o que mais fiquei ‘encucado’ foi que a agulha não retinha sujeira alguma! Para você ter ideia do quanto de sujeira se retém na agulha, o máximo que consigo é ficar três ou quatro LPs sem precisar limpar, antes de colocar um novo disco. E falo de LPs que lavo regularmente, pois estão entre os LPs utilizados na Metodologia.

E fui limpar a agulha apenas depois de escutar 47 LPs dos dois lados!

Sabe o que significa isso? Só o audiófilo que possui um excelente sistema analógico vai compreender o meu total espanto e alegria, ao não precisar se certificar que o volume está totalmente fechado para usar a escova de agulha, e não tomar um baita susto. Ou, a cada virada de lado do disco, colocar o óculos para enxergar se acumulou sujeira na agulha.

Imagino que esse ‘benefício’ não só nos poupe desse ritual, como conserve por mais tempo a agulha e o cantilever. Essa é a maior vantagem de um braço linear, não raspar as bordas dos sulcos, pois seu ângulo de leitura é sempre preciso com o do corte do disco. Mas acho que o braço e o prato estarem suspensos em um bolsão de ar, diminuindo drasticamente o atrito, é que são os responsáveis por esse fenômeno de manter a agulha limpa.

Tirando esse benefício, o que mais esse Modi faz? Não riam, pois essa foi a pergunta que minha esposa me fez quando comentei com a família essa preservação da agulha longe de sujeira. Aí convidei-a para ouvir os LPs que ela tanto conhece e aprecia, como o Angelus e Clube da Esquina do Milton Nascimento, João Bosco – Cabeça de Nêgo, Gilberto Gil – Refavela, e O Grande Circo Místico do Chico Buarque com o Edu Lobo.

Sua expressão de incredulidade foi a mesma que a minha e a do Maltese ao ouvir o Yes. Não dá para fazer cara de paisagem depois de ser exposto a tanta informação de forma tão organizada e precisa.

É uma avalanche de informações que levam seu cérebro a se perguntar se é a mesma gravação que você já ouviu uma centena de vezes. E tudo com tanta graça, harmonia e detalhamento, que se leva algum tempo para interiorizar tudo. A mente, por um tempo, deseja participar ativamente das ‘descobertas’ e eu, particularmente, detesto essa postura, pois gosto de ouvir sem pensar. E por uma boa dúzia de LPs tive que suportar minha mente interferindo: “olha isso, você ouviu?”, ou: “que facilidade ficou essa passagem!”, “agora sim está explicada a mudança de andamento e todos os adjetivos ao final de mais um disco”.

Uma coisa é você ter a companhia de uma outra pessoa na sala, expressando suas opiniões, agora sua própria mente!

Tive que passar todas essas informações também para o meu diário, pois percebi que por mais que me esforçasse em tentar silenciar minha mente, até esse primeiro impacto ‘visceral’ amainar, fui um tagarela inconveniente!

Você deve estar se perguntando: que diabos o Andrette precisa compartilhar seus ‘tiques auditivos’ conosco? É que não é comum eu ter essa reação, acredite leitor. Tenho tanto tempo rodado nessa estrada, que algo para me tirar do meu porto seguro, precisa vir como uma tempestade ou um susto! E o Modi foi um susto e tanto!

E só vi o tamanho do susto, quando percebi finalmente que não estava pronto para o que esse toca-discos iria me apresentar.

Acabei no décimo dia de teste, minhas anotações, com a seguinte frase: ”O Modi foi um divisor de águas, tão preciso e profundo que não será exagero escrever que existe o ‘Antes do Bergmann e depois do Bergmann’.”

O meu Origin Live é de longe não só o melhor toca-disco que testei, e que tive, nos últimos 30 anos. E o tenho por suas enormes qualidades, e o montei com um braço de 12 polegadas para extrair o sumo do sumo da plataforma. E por mais que o admire e o use com prazer, ouvir os mesmos discos em ambos mostra diferenças tão intensas que é algo semelhante a comparar dois universos distintos, e que convivem paralelos sem a menor hipótese de se comunicarem. Caminham razoavelmente próximos até um determinado ponto, mas depois se distanciam de maneira irreversível! E a maior diferença não está em extrair mais informações e sim na maneira que as informações são extraídas.

Um exemplo simples, para tornar ‘explicáveis’ as diferenças: toda microdinâmica que é lida pelo Modi, não possui ‘borramento’ algum. E, no entanto, a micro não se torna mais evidente no todo. Ela apenas está lá de maneira audível e nunca borrada. O que deixa a organização musical muito mais coesa, coerente e real!

Pois quando uma microdinâmica aparece borrada, ou ela passa despercebida ou então fica deslocada do todo. Para obras com poucos instrumentos, essa característica pode parecer irrisória, mas em formações maiores faz uma grande diferença. Um dos exemplos foi minha esposa que percebeu, ao ouvir um pau de chuva na faixa Clube da Esquina 2, que ela sempre escutou borrado em todo setup que mostrei esse disco a ela. E no Modi é possível não só ouvir plenamente o pau de chuva, como ele está perfeitamente focado e recortado no meio de todo o acontecimento musical.

Um outro exemplo foi quando escutei o LP duplo do Stevie Wonder, o The Original Musiquarium, a faixa Isn’t She Lovely, e a gaita como a conversa do filho com ele tem uma série de ‘truques’ na captação, e soam geralmente estridentes tanto a voz como a gaita. O Modi consegue de novo ‘organizar’ tudo em termos de melhor apresentação da microdinâmica e um melhor equilíbrio tonal para essa faixa.

Foi aí que me dei conta do quanto o Modi, com a cápsula que é nossa Referência, com o cabo Dynamique Apex no TD, e o pré de phono Gold Note, subiram mais alguns pontos nesses quesitos (micro e macrodinâmica, equilíbrio tonal, transientes e textura) em relação ao nosso Origin Live.

E quando você finalmente assimila essas diferenças que são tão audíveis, você se atém ao quanto um toca-discos com essas características se encontra em um outro patamar de performance, e como comparar com os toca-discos ‘convencionais’ – por mais que sejam espetaculares em termos de construção, detalhe, precisão – é impossível. Pois são de dimensões distintas.

E não se esqueça que este é o projeto de entrada da Bergmann! E que se o audiófilo quiser ficar um pouco mais acima, sem ir para as ‘cabeças’, ele pode manter o Modi e investir no braço acima do Thor, o Odin.

Depois de me deliciar com mais de 80 LPs, que escutei na íntegra, o que posso dizer objetivamente é que nunca escutei um sistema analógico com tanta precisão detalhamento e performance! Será um daqueles poucos produtos testados nesses 27 anos, que fará uma falta enorme quando eu sentar para ouvir esses mesmos 80 LPs e sentir que todos eles soam muito melhores do que eu estou ouvindo.

CONCLUSÃO

Um toca-discos como o Modi da Bergmann precisa que todo o sistema esteja no mesmo patamar. Comprar um equipamento desse nível para colocar uma boa cápsula, ligá-lo a um bom pré de phono, será simplesmente jogar seu dinheiro fora, subutilizando um toca-discos primorosamente construído e muito bem resolvido. Que tem como objetivo extrair o sumo do analógico!

Se você se ‘preparou’ para experienciar esse tão alto nível de performance, comece pelo Modi da Bergmann, e se tiver fôlego vá passo-a-passo galgando o último degrau!

Eu, se pudesse, me daria por satisfeito em parar exatamente aqui!

Nota: 115,0
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